O impacto das redes sociais atravessa praticamente toda a sociedade brasileira
(Imagem: Tima Miroshnichenko / Pexels)
A imagem do Brasil como “país alegre” ainda resiste no imaginário coletivo, mas uma nova pesquisa nacional indica que a felicidade brasileira convive, cada vez mais, com ansiedade, solidão digital e desgaste emocional, especialmente entre os mais jovens.
O estudo “Mapa da Felicidade Real do Brasil 2026”, desenvolvido pela pesquisadora Renata Rivetti em parceria com o Instituto Ideia, traça um amplo retrato sobre bem-estar emocional, relações sociais, trabalho e impacto das redes sociais na vida dos brasileiros. O estudo ouviu 1.500 pessoas em todo o país e aponta uma contradição central: embora 89% dos entrevistados afirmem se considerar felizes, cresce o número de brasileiros que relatam ansiedade frequente, estresse e sofrimento emocional associado à hiperconexão digital.
O recorte mais alarmante aparece entre jovens de 16 a 24 anos. Segundo o levantamento, 71,1% afirmam já ter se sentido “tristes ou infelizes ao consumir conteúdo” nas redes sociais, enquanto 63,4% dizem se sentir dependentes de telas e plataformas digitais. Além disso, 77,3% relatam comparar a própria vida com a de outras pessoas na internet.
Para os pesquisadores, o dado mais relevante não está isoladamente em cada indicador, mas no acúmulo deles. O relatório afirma que “o grupo mais jovem aparece com menos proteção relacional, maior exposição à comparação e maior desgaste subjetivo e laboral”.
A pesquisa mostra ainda que apenas 79% dos jovens dizem possuir uma rede de apoio emocional — o menor índice entre todas as faixas etárias analisadas. O resultado reforça a percepção de uma geração intensamente conectada digitalmente, mas cada vez mais fragilizada em vínculos presenciais e relações de confiança.
O impacto das redes sociais atravessa praticamente toda a sociedade brasileira. Entre os usuários de plataformas digitais, 56,5% afirmam já ter comparado a própria vida com a de outras pessoas, 50% relatam dependência de redes e telas e 50,5% dizem ter sentido tristeza ao consumir conteúdos on-line.
Ao analisar o comportamento emocional dos brasileiros, o estudo desmonta a visão simplificada do país permanentemente otimista. O relatório aponta que 33% dos entrevistados convivem com ansiedade frequente e 29% relatam estresse no cotidiano. Ainda assim, os pesquisadores identificam uma capacidade persistente de adaptação emocional sustentada por vínculos afetivos, fé e esperança.
Nas considerações finais, o documento resume essa dualidade ao afirmar: “O clichê do ‘país alegre’ precisa evoluir. O Brasil de 2026 é um país de resiliência ativa. A felicidade aqui não é ausência de problemas, mas a força das relações, esperança e fé!”.
Felicidade e trabalho
O levantamento também dedica um capítulo inteiro à relação entre felicidade e trabalho. Entre os 1.208 trabalhadores ouvidos, 76,6% afirmaram que o trabalho contribui para a felicidade, mas 23,4% disseram o contrário. Entre jovens de 16 a 24 anos, porém, a infelicidade ligada ao trabalho sobe para 46,7%.
Segundo o estudo, “a felicidade no trabalho cai drasticamente entre os mais jovens”. O relatório acrescenta que “a queda de 34 pontos percentuais entre 16–24 e 60+ não é apenas uma curiosidade demográfica; ela sugere uma entrada no mercado de trabalho marcada por maior desalinhamento, desgaste ou frustração de expectativa”.
A pesquisa mostra ainda que flexibilidade e qualidade de vida são hoje os principais fatores associados à felicidade profissional, citados por 26,4% dos entrevistados. Já os maiores elementos de desgaste são sobrecarga (23,6%), salário (19,6%) e liderança ruim (14,2%).
Ao interpretar os resultados, o relatório afirma que “o mercado de trabalho atual vive um paradoxo em que o fator principal de felicidade é flexibilidade e qualidade de vida e a rotina vivida impõem uma sobrecarga que muitas vezes anula essa possibilidade”.
O estudo também identifica desigualdades importantes na experiência do bem-estar. Segundo o documento, “a felicidade no trabalho acompanha desigualdade estrutural” e “a base da pirâmide tem uma proporção de infelicidade muito superior à do topo”.
Sobre a pesquisa
O “Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026” ouviu 1.500 brasileiros em entrevistas telefônicas realizadas entre 20 de fevereiro e 1º de março deste ano. O levantamento possui margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Autora do livro O Poder do Bem-Estar, Rivetti atua na área de ciência da felicidade, relações humanas e futuro do trabalho. Ex-executiva de marketing, ela passou a se dedicar ao estudo do bem-estar e da saúde emocional no ambiente contemporâneo, tornando-se uma das vozes brasileiras ligadas à discussão sobre equilíbrio digital e qualidade de vida.