Brasil já ultrapassou 30 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2026
(Imagem: Tumisu / Pixabay)
Com a chegada do outono e das primeiras ondas de frio, cresce também a confusão entre gripe, resfriado e alergias respiratórias, um cenário que tem levado mais pacientes aos consultórios e pronto-socorros em todo o país.
Dados do boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostram que o Brasil já ultrapassou 30 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2026, com aumento importante da circulação de influenza e rinovírus nas últimas semanas.
Coriza, espirros, tosse, congestão nasal e dor de garganta costumam aparecer tanto em quadros virais quanto em crises alérgicas, dificultando a identificação correta dos sintomas, especialmente em períodos de clima seco, mudanças bruscas de temperatura e maior permanência em ambientes fechados.
Especialistas alertam que a semelhança entre os quadros faz com que muitas pessoas negligenciem sinais importantes ou recorram à automedicação.
Em entrevista à Folha de Alphaville, a médica pneumologista Ana Carolina Lima Resende, coordenadora da pneumologia do Hospital São Luiz Alphaville, explica como diferenciar gripe, rinite e outras doenças respiratórias, quais sintomas merecem atenção e por que os casos costumam aumentar nesta época do ano.
Folha de Alphaville: Quais são as principais características que diferenciam a gripe da alegria respiratória?
Drª. Ana Carolina: A gripe, na verdade, é um processo infeccioso provocado por um vírus, é um processo agudo, geralmente tem o início mais súbito. Pode cursar com febre, mal-estar, cansaço. Em casos mais graves esses pacientes podem desenvolver até falta de ar, alteração com o chiado, o que a gente chama de sibilo, e até processos graves que precisam de internação. Já as alergias respiratórias são respostas do nosso sistema imunológico a estímulos que podem estar presentes em qualquer lugar: poeira, ácaro, pólen, mofo, cheiro de perfume... Geralmente elas cursam com sintomas de via aérea superior nos casos mais leves. A gente pode ter uma coriza bem clarinha, espirros repetidos, principalmente quando há exposição direta a esses alérgenos, coceira no nariz, nos olhos e, em geral, não é pra cursar com nenhum outro fator como febre, mal-estar no corpo, nada disso.
Folha de Alphaville: É muito comum nas consultas esse tipo de confusão por parte dos pacientes?
Drª. Ana Carolina: É muito comum que nas consultas esse tipo de confusão ocorra por parte dos pacientes porque eles associam esse quadro de coriza, tosse, até aquela tosse que pode ser tanto seca como com secreção mais clara, a um processo de gripe. Muitas vezes, temperaturas extremas também podem desencadear quadros de alergia e até processos como rinite. Pode até ser um quadro mais acentuado de vias aéreas inferiores, que a gente vai chamar de asma, que é um processo que pode também ter uma base alérgica e que pode também cursar com chiado, tosse, outros sintomas, porque está cursando ali com um processo inflamatório dos brônquios, da parte inferior da via aérea pulmonar. E essa confusão até aumenta nessa época que a gente está entrando, de outono / inverno, que é quando tem mais vírus circulando e tem muita mudança de temperatura que também faz com que os pacientes desenvolvam mais quadros da própria rinite.
Folha de Alphaville: Qual é o principal problema quando esses dois quadros são confundidos?
Drª. Ana Carolina: O problema é que o tratamento vai ser inadequado. O paciente com alergia pode acabar usando remédios desnecessários, e o paciente com gripe as vezes pode não receber orientação adequada, principalmente quando a gente pensa em risco de complicações. E, é claro, tudo isso impacta na qualidade de vida, no tempo de sintomas, impacta até na transmissão. Por exemplo: um paciente com alergia não transmite alergia pra ninguém, mas um paciente com gripe pode transmitir para outras pessoas. Tudo isso pode gerar um processo ruim para os pacientes.
Folha de Alphaville: Sabemos que no outono / inverno as doenças respiratórias atacam mais. Isso vale também para as alergias? Por que?
Drª. Ana Carolina: Isso também vale para alergia porque as pessoas ficam geralmente em ambientes mais fechados, com menor ventilação, o que aumenta a exposição a acaro, a mofo, a poeira, que são os principais gatilhos alérgicos. E também o ar mais seco pode irritar as vias aéreas, piorar os sintomas dos pacientes que já têm predisposição, além do clima mais frio.
Folha de Alphaville: Quais são os principais tipos de alergias respiratórias?
Drª. Ana Carolina: São a rinite alérgica e o processo de asma. A rinite geralmente vai ter sintomas mais de via aérea superior, como já citei: sintomas que desenvolvem ali falta de ar, tosse, chiado...
Folha de Alphaville: As alergias respiratórias podem se manifestar em qualquer momento da vida?
Drª. Ana Carolina: As alergias respiratórias podem, sim, se manifestar em qualquer momento da vida, mas é óbvio que é muito mais comum que elas iniciem já no período de infância. Existe também um fator genético já associado, além dos fatores de exposição ambiental e do grau de exposição aos alérgenos ao longo da vida e dos anos.
Folha de Alphaville: A automedicação pode mascarar sintomas e reforçar a confusão entre gripe e alergia?
Drª. Ana Carolina: A automedicação pode, sim, mascarar os sintomas e reforçar a confusão entre gripe e alergia, porque o uso indiscriminado de antigripais, anti-histamínicos, descongestionantes podem aliviar temporariamente sintomas em qualquer uma das condições, mas eles dificultam a identificação da causa real. Isso acaba atrasando o diagnóstico e o tratamento adequado. Por isso no Hospital São Luiz de Alphaville a gente conta com uma equipe especializada no ambulatório, assim como a equipe do pronto-socorro e, quando necessário, a internação desses pacientes para cuidar de todo esse processo e dos exames pra fazer o diagnóstico correto de todas essas condições.
Folha de Alphaville: Quais os riscos da automedicação?
Drª. Ana Carolina: Os riscos vão desde os efeitos colaterais das próprias medicações até sonolência excessiva, alterações cardíacas, aumento de pressão arterial – falando de uma maneira geral –, e o agravamento de doenças não diagnosticadas, como a asma, porque ela pode de fato piorar quando a gente não tem o diagnóstico adequado e fica se automedicando. Quando a gente usa remédios que não são indicados pra nós, isso também contribui para um cuidado menos seguro, expõe esse paciente a riscos, pode diminuir a qualidade de vida, aumentar o risco de transmissão se a gente estiver falando de um quadro gripal.