Números revelam a persistência do problema da violência contra a mulher
(Imagem: Vitaly Gariev / Unsplash)
Um levantamento internacional indica que a violência dentro de relações afetivas segue como um problema estrutural no Brasil: pelo menos uma em cada dez mulheres no país já foi vítima de agressões cometidas por parceiros íntimos. O dado faz parte do estudo Global Burden of Disease (GBD), publicado na revista científica The Lancet.
Segundo a pesquisa, cerca de 11 milhões de brasileiras com 15 anos ou mais sofreram esse tipo de violência em 2023, o que corresponde a uma taxa entre 10% e 14% dessa população.
Apesar de o índice colocar o Brasil em uma posição intermediária no cenário global, os números revelam a persistência do problema. Na América Latina, a violência de parceiro íntimo não se concentra em regiões específicas, mas aparece de forma contínua em diferentes contextos sociais, sem sinais consistentes de redução ao longo do tempo.
Cenário global e impacto
Em escala mundial, a situação é ainda mais alarmante: aproximadamente uma em cada cinco mulheres já sofreu violência por parceiro íntimo ao longo da vida, somando cerca de 608 milhões de vítimas.
O estudo também dimensiona os impactos desse tipo de violência na saúde pública. Em 2023, episódios envolvendo parceiros íntimos foram responsáveis por 18,5 milhões de anos de vida perdidos entre mulheres, seja por morte precoce ou por incapacidade causada por doenças associadas.
Além disso, a violência sexual na infância, frequentemente relacionada a ciclos de violência ao longo da vida, respondeu por 32,2 milhões de anos de vida perdidos globalmente.
Efeitos além da agressão
Especialistas apontam que as consequências vão muito além do momento da violência. O impacto pode incluir transtornos mentais, como depressão e ansiedade, além de maior vulnerabilidade a novas situações de abuso.
Quando a violência ocorre ainda na infância, os efeitos tendem a ser mais profundos, afetando o desenvolvimento emocional, vínculos sociais e a capacidade de lidar com o estresse ao longo da vida.
Problema persistente
Mesmo sem figurar entre os países com maiores índices, o Brasil enfrenta um padrão contínuo de violência contra a mulher dentro de relações íntimas. A taxa pode chegar a uma em cada sete mulheres, dependendo do recorte analisado, evidenciando que o problema permanece disseminado.
Os dados reforçam que a violência de gênero segue como um dos principais desafios de saúde e segurança pública, exigindo políticas permanentes de prevenção, acolhimento às vítimas e enfrentamento das causas estruturais.
Feminicídio cresce no Brasil
Os dados mais recentes sobre feminicídio ajudam a dimensionar como a violência de gênero tem se agravado no país.
Embora os indicadores de agressões por parceiros íntimos apontem para uma persistência do problema ao longo do tempo, sem grandes variações, os assassinatos de mulheres por razões de gênero seguem em trajetória de alta. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (com dados de 2023 – 2024), mostra que os casos de feminicídio continuam crescendo no Brasil, evidenciando uma escalada da forma mais extrema dessa violência.
Segundo o levantamento, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. O estudo também aponta um avanço expressivo das tentativas de feminicídio, que somaram 3.870 casos, alta de 19% em relação ao período anterior . O perfil das vítimas evidencia desigualdades estruturais: 64% eram mulheres negras e 71% tinham entre 18 e 44 anos.
A maioria dos crimes ocorre no ambiente doméstico e é praticada por pessoas próximas. De acordo com o anuário, cerca de 8 em cada 10 vítimas foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, e 64% dos casos aconteceram dentro da própria residência.
Os dados indicam ainda que, enquanto as mortes violentas em geral apresentaram queda no país, a violência de gênero segue em trajetória oposta, com crescimento dos feminicídios e de outras formas de agressão contra mulheres.