Em 2025 foram registrados 500 mil casos de chikungunya no mundo
(Imagem: Erwinbosman / Pixabay)
O Instituto Butantan recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fabricar no Brasil a vacina contra chikungunya, a Butantan-Chik, tornando o país capaz de produzir nacionalmente um dos imunizantes mais aguardados no enfrentamento às arboviroses transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. A decisão foi anunciada pela Anvisa na última segunda-feira (4).
A autorização representa um passo estratégico para ampliar a autonomia brasileira na produção de vacinas e acelerar a futura incorporação do imunizante ao Sistema Único de Saúde (SUS), em meio ao avanço dos casos de chikungunya em diversas regiões do país.
Até então, embora a vacina já tivesse recebido registro sanitário da Anvisa em abril de 2025, a produção autorizada estava concentrada nas instalações da farmacêutica franco-austríaca Valneva, parceira internacional do Butantan no desenvolvimento do produto. Com a nova autorização regulatória, o instituto paulista passa oficialmente a realizar etapas de formulação e envase da vacina em território nacional.
Segundo o governo paulista e a própria Anvisa, a produção brasileira manterá os mesmos padrões internacionais de qualidade, segurança e eficácia já demonstrados nos estudos clínicos e exigidos pelas agências reguladoras.
A vacina Butantan-Chik é indicada para adultos de 18 a 59 anos expostos ao vírus chikungunya. Em estudos clínicos conduzidos nos Estados Unidos com cerca de 4 mil voluntários de 18 a 65 anos, o imunizante apresentou taxa de produção de anticorpos neutralizantes de 98,9%, segundo dados publicados na revista científica The Lancet em 2023.
Os eventos adversos observados durante os testes foram considerados predominantemente leves ou moderados, incluindo dor de cabeça, fadiga, febre e dores musculares.
Além do Brasil, a vacina já recebeu aprovações regulatórias em países como Estados Unidos, Canadá e integrantes da União Europeia. Nos Estados Unidos, o imunizante foi autorizado pela Food and Drug Administration (FDA) em novembro de 2023.
Avanço das arboviroses
A produção nacional ocorre em um momento de crescente preocupação das autoridades sanitárias com o avanço das arboviroses no país. A chikungunya, transmitida pelo mesmo mosquito da dengue e da zika, provoca febre alta e dores articulares intensas, que podem persistir por meses ou até anos em parte dos pacientes.
Especialistas apontam que fatores climáticos, expansão urbana desordenada e aumento das temperaturas médias têm contribuído para a disseminação acelerada do mosquito transmissor em diferentes regiões brasileiras. Estudos epidemiológicos recentes mostram que dengue e chikungunya vêm ampliando sua distribuição geográfica no país ao longo da última década.
Referência em vacinas
A aposta do Butantan na produção nacional também reforça a estratégia brasileira de fortalecimento da indústria pública de imunizantes. O instituto já é um dos principais fornecedores de vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e produz anualmente dezenas de milhões de doses de imunizantes utilizados pelo SUS, incluindo vacinas contra gripe, hepatite e HPV.
Nos últimos anos, o Butantan ampliou investimentos em autonomia tecnológica após a experiência da pandemia de covid-19, quando se tornou protagonista na produção da CoronaVac em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. O instituto também avançou recentemente no desenvolvimento da primeira vacina brasileira contra a dengue.
O diretor do Butantan, Esper Kallás, afirmou à Agência Brasil que a autorização da Anvisa representa um marco para a saúde pública nacional e poderá reduzir custos de aquisição do imunizante no futuro, ampliando o acesso da população.
“Mais um marco importante para o Instituto Butantan e para a saúde da população. Ao executar a maior parte do processo de fabricação, o Instituto Butantan, por ser uma instituição pública, poderá entregar a vacina com um preço menor e mais acessível, com a mesma qualidade e segurança”, afirmou Kallás.
Embora ainda não exista data oficial para uma vacinação em larga escala pelo SUS, o Ministério da Saúde já vinha realizando estratégias piloto de aplicação da vacina em municípios com alta incidência da doença desde fevereiro deste ano.
A expectativa do governo federal é que a produção nacional facilite a expansão gradual da cobertura vacinal contra a chikungunya, especialmente em Estados que enfrentam surtos recorrentes da doença. Em um cenário de aumento das arboviroses associado às mudanças climáticas e à proliferação do Aedes aegypti, a vacina é vista por especialistas como uma das principais ferramentas para reduzir internações e complicações crônicas ligadas ao vírus.
Sobre a chikungunya
Os sintomas da doença incluem febre, de início súbito (acima de 39,5°C), dores intensas nas articulações de pés e mãos, dor de cabeça, dor muscular e manchas vermelhas na pele. A condição pode causar dor crônica nas articulações que pode durar meses ou até anos, afetando gravemente a qualidade de vida.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) afirma que em 2025 foram registrados 500 mil casos de chikungunya no mundo. Só o Brasil notificou 127 mil casos e 125 óbitos, segundo o Ministério da Saúde.