Especialistas acreditam que a contaminação nos produtos possa ter ocorrido durante o processo de fabricação
(Imagem: Site Ypê)
A bactéria Pseudomonas aeruginosa, identificada em produtos da fabricante Ypê, acendeu um alerta entre especialistas em saúde por causa da capacidade do micro-organismo de provocar infecções graves, principalmente em pessoas imunocomprometidas e pacientes hospitalizados.
A contaminação levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, a determinar a suspensão da fabricação, comercialização e distribuição de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes da empresa com lotes terminados em número 1 no dia 7 de maio de 2026 por meio da Resolução nº 1.834/2026 no Diário Oficial da União. Os produtos também deverão ser recolhidos do mercado.
Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a bactéria possui elevada resistência a antibióticos e pode causar desde infecções urinárias até pneumonias severas, especialmente em pessoas com imunidade comprometida, pacientes em quimioterapia, usuários de cateter, ventilação mecânica ou portadores de doenças pulmonares crônicas.
O infectologista Celso Ferreira Ramos Filho, membro titular da Academia Nacional de Medicina e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explicou que a Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria de “vida livre”, encontrada naturalmente em ambientes úmidos, água e solo.
Por causa dessa característica, ela consegue sobreviver em esponjas, panos úmidos e até em ambientes hospitalares, considerados críticos para disseminação de infecções resistentes.
Maior risco está nos hospitais
A médica Raiane Cardoso Chamon, professora do Departamento de Patologia da Universidade Federal Fluminense, afirmou à Agência Brasil que o cenário mais perigoso ocorre quando a bactéria entra no ambiente hospitalar.
Segundo ela, hospitais concentram grande uso de antibióticos, o que favorece o surgimento de cepas mais resistentes e difíceis de tratar. Nessas situações, a bactéria pode provocar infecções na corrente sanguínea, pneumonias associadas à ventilação mecânica e complicações em pacientes com sondas urinárias.
Em pacientes com fibrose cística, por exemplo, a Pseudomonas aeruginosa é uma das principais causas de pneumonia crônica. Já em pessoas saudáveis, a bactéria também pode causar doenças, como otites associadas à exposição prolongada à água contaminada em piscinas, rios e praias.
Suspeita de falha no controle microbiológico
Especialistas acreditam que a contaminação nos produtos possa ter ocorrido durante o processo de fabricação.
De acordo com Raiane Chamon, a hipótese mais provável é de falha no controle microbiológico industrial, permitindo a proliferação da bactéria em ambientes úmidos utilizados na produção.
A médica ressaltou que existe tolerância técnica para níveis mínimos de micro-organismos em determinados produtos, mas que esses limites não podem ultrapassar parâmetros considerados seguros para a saúde pública.
O que o consumidor deve fazer
A recomendação da Anvisa é que consumidores verifiquem os lotes dos produtos adquiridos e interrompam imediatamente o uso dos itens suspensos.
Entre os produtos atingidos pela medida estão detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê com lotes terminados em número 1.
A empresa informou que está colaborando com a Anvisa e realizando análises técnicas complementares, incluindo testes independentes. A companhia também declarou que adotará eventuais medidas corretivas determinadas pela agência reguladora.
O episódio ocorre em meio ao aumento das preocupações globais com bactérias resistentes a antibióticos. Em fevereiro deste ano, a própria Anvisa aprovou o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde para o período de 2026 a 2030, voltado justamente ao combate da resistência microbiana em hospitais e serviços de saúde.