Letalidade policial voltou a subir no Estado
(Imagem: Pablo Jacob / Governo do Estado de SP)
Policiais militares e civis em serviço mataram 142 pessoas no primeiro trimestre de 2026 no Estado de São Paulo, segundo dados do Ministério Público estadual. O número representa um aumento de cinco mortes em relação ao mesmo período de 2025, evidenciando a manutenção de um patamar elevado de letalidade policial no Estado.
O levantamento, baseado em informações do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública (Gaesp) do Ministério Público de São Paulo, considera as chamadas mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) — casos em que agentes de segurança causam mortes durante ações. Os dados são enviados diretamente pelas polícias Civil e Militar à promotoria, conforme normas legais e diretrizes da Secretaria de Segurança Pública.
Estabilidade na PM e alta fora de serviço
Entre janeiro e março de 2026, a Polícia Militar (PM) foi responsável por 134 mortes em serviço, número idêntico ao registrado no mesmo período de 2025. Já fora do horário de trabalho, policiais militares mataram 29 pessoas, três a mais do que no ano anterior.
Quando se somam os casos envolvendo agentes fora de serviço,incluindo também policiais civis, o total de mortes no trimestre chega a 175 vítimas, ante 166 no mesmo período de 2025 (142 em serviço + 33 fora de serviço em 2026, contra 137 + 29 no ano anterior).
Tendência de alta recente
Os números do primeiro trimestre reforçam uma tendência de crescimento observada nos últimos anos. Após um período de queda entre 2019 e 2022, a letalidade policial voltou a subir no Estado. Em 2025, foram 703 pessoas mortas por policiais em São Paulo, consolidando uma escalada iniciada em 2023.
Esse cenário contrasta com anos anteriores, quando políticas como o uso de câmeras corporais contribuíram para reduzir os índices. Em 2023, por exemplo, o Estado registrou 510 mortes por intervenção policial, o menor número da série recente.
Avaliação de especialistas
Especialistas e órgãos de controle apontam que o atual patamar de mortes continua elevado.
Em entrevista à Agência Brasil, o ouvidor da Polícia de São Paulo, Mauro Caseri, avalia que uma política de segurança eficaz deve reduzir a violência preservando vidas. Segundo ele, fatores como a falta de políticas estruturadas de saúde mental para policiais e a insuficiência de mecanismos de controle do uso da força ajudam a explicar a persistência da letalidade. “Cria uma polícia do confronto. Precisamos de uma polícia que resolva conflitos, não de uma polícia que crie conflitos”, disse o ouvidor.
Também à Agência Brasil, o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Adilson Santiago, afirmou que o estado de São Paulo vive uma crise da segurança pública. “São os números que impressionam pelo aumento da letalidade policial e da violência policial, pelo aumento da incapacidade de uma polícia que deveria ser preparada para proteger a população, mas vem violando direitos”, disse.
Impacto social e perfil das vítimas
Embora o recorte do trimestre não detalhe o perfil das vítimas, estudos recentes indicam que a violência policial atinge principalmente jovens. Levantamentos mostram que, entre 2013 e 2025, 11,26% das vítimas tinham entre 10 e 17 anos, somando mais de 1.010 crianças e adolescentes mortos nesse período.
Além disso, dados mais recentes apontam crescimento de mortes nessa faixa etária: somente em 2024, 77 crianças e adolescentes foram mortos em intervenções policiais em São Paulo, representando 34% das mortes violentas nessa idade.
Contexto
O Estado de São Paulo concentra os maiores números absolutos de mortes por intervenção policial no país. Em 2024, o total já havia ultrapassado 800 vítimas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, evidenciando a dimensão do problema.
Embora não haja explosão imediata nos números, com base nos dados do início de 2026, a letalidade policial permanece em nível alto e sustentado, mantendo o tema no centro do debate sobre segurança pública, controle da atividade policial e garantia de direitos humanos no país.