Desenvolvido pela empresa norte-americana Grail, o teste é comercializado no país pela Genesis Genomics
(Imagem: Reproducao_site_galleri)
Uma nova tecnologia para o rastreamento do câncer começou a ser oferecida no Brasil neste mês de outubro. Batizado de Galleri, o exame utiliza uma única amostra de sangue para procurar sinais associados a mais de 50 tipos da doença, incluindo tumores que não contam com métodos de detecção precoce recomendados rotineiramente. O procedimento custa R$ 6.990, exige solicitação médica e não tem cobertura dos planos de saúde.
Desenvolvido pela empresa norte-americana Grail, o teste é comercializado no país pela Genesis Genomics, parceria entre o Einstein Hospital Israelita e o Grupo Fleury. A coleta é realizada nas unidades das duas instituições, mas as amostras são enviadas aos Estados Unidos para análise. O resultado fica disponível em aproximadamente 30 dias.
A tecnologia é destinada principalmente a pessoas com 50 anos ou mais que não apresentam sintomas de câncer. Indivíduos com histórico familiar da doença ou outros fatores de risco também podem ser considerados, conforme avaliação médica.
O diferencial está na possibilidade de investigar, simultaneamente, sinais de diversos tumores. Entre eles estão os cânceres de pâncreas, fígado, ovário, estômago, vias biliares, cabeça e pescoço, além de linfomas e mielomas. Muitos desses tipos não possuem exames de rastreamento recomendados para pessoas sem sintomas.
Apesar do potencial, especialistas ressaltam que o Galleri ainda apresenta limitações importantes. Um resultado negativo não significa ausência de câncer, assim como um resultado positivo não confirma a doença.
Tecnologia procura vestígios do câncer na circulação sanguínea
O Galleri utiliza uma técnica conhecida como biópsia líquida, que permite investigar sinais moleculares associados ao câncer sem a necessidade de retirar inicialmente um fragmento de tecido.
O organismo libera continuamente pequenas quantidades de DNA na corrente sanguínea. As células cancerígenas também podem liberar esse material, que apresenta determinadas características capazes de diferenciá-lo daquele proveniente de células saudáveis.
Por meio de sequenciamento genético e análise de padrões de metilação (modificações químicas que ajudam a regular a atividade dos genes), o exame procura identificar assinaturas moleculares associadas à presença de tumores.
Quando encontra um sinal suspeito, o sistema também estima o órgão ou tecido de origem. Essa informação pode orientar o médico na escolha dos exames necessários para investigar a possível presença de câncer.
A capacidade de identificação, entretanto, varia de acordo com o tipo e o estágio da doença. Alguns tumores liberam mais fragmentos de DNA na circulação, enquanto outros produzem sinais mais difíceis de detectar, especialmente nas fases iniciais.
O Galleri também não deve ser confundido com exames genéticos hereditários. Enquanto estes investigam alterações que podem indicar predisposição ao desenvolvimento de determinados cânceres, a nova tecnologia procura sinais associados a tumores que possam estar presentes no organismo no momento da coleta.
Pesquisa aponta limitações na detecção de tumores iniciais
Um dos principais estudos sobre o exame, chamado PATHFINDER 2, foi publicado em setembro de 2026 na revista científica Nature Medicine. A pesquisa acompanhou 35.878 participantes nos Estados Unidos e no Canadá, com idade a partir de 50 anos e sem suspeita clínica de câncer.
Os resultados mostraram especificidade de 99,6%, indicador que representa a capacidade do teste de apresentar resultado negativo em pessoas que não têm a doença.
A sensibilidade geral, que mede a capacidade de identificar os casos existentes, foi de 39,3%. Isso significa que, entre os participantes que tiveram câncer diagnosticado durante o período de acompanhamento, o exame identificou aproximadamente quatro em cada dez casos.
O desempenho foi diferente conforme o estágio da doença. Nos tumores em estágio 1, quando o câncer ainda está em fase inicial, a sensibilidade foi de 21,4%. Já no estágio 4, quando a doença está mais avançada, chegou a 63,2%.
Entre os participantes com resultado positivo, 60,3% tiveram câncer confirmado. O exame também acertou a provável origem do tumor em 91,3% dos casos em que a doença foi identificada.
Os pesquisadores observaram ainda que 0,6% dos participantes avaliados quanto à segurança passaram por procedimentos invasivos após um resultado positivo. Não foram registrados eventos adversos graves relacionados ao estudo até o momento da análise.
Os autores destacaram, porém, que são necessários estudos randomizados e acompanhamento por períodos mais longos para determinar os benefícios clínicos da tecnologia.
Estudo britânico não comprovou redução de casos avançados
Outra pesquisa de grande porte, realizada pelo sistema público de saúde do Reino Unido, o NHS, avaliou o uso do Galleri em mais de 142 mil pessoas com idades entre 50 e 77 anos.
O objetivo principal era verificar se a inclusão do exame no rastreamento convencional reduziria a quantidade de cânceres diagnosticados nos estágios 3 e 4, considerados mais avançados.
Após três rodadas de rastreamento, o estudo não encontrou uma redução estatisticamente significativa no conjunto desses diagnósticos. Os pesquisadores observaram, entretanto, uma diminuição de 14% nos casos identificados em estágio 4 e aumento da detecção de tumores em fases iniciais.
Os resultados mostram que a tecnologia pode contribuir para encontrar determinados cânceres antes do aparecimento de sintomas, mas ainda não existe comprovação de que sua utilização reduza a mortalidade pela doença.
Essa é uma das principais questões em discussão na comunidade científica. Identificar um tumor mais cedo não significa, necessariamente, que o paciente viverá mais, especialmente quando ainda não se sabe se a antecipação do diagnóstico modifica o resultado do tratamento.
Resultado positivo exige investigação complementar
O Galleri é classificado como exame de rastreamento, e não de diagnóstico. Por isso, a identificação de um sinal suspeito precisa ser seguida de uma investigação médica para confirmar ou descartar a existência de um tumor.
Dependendo da provável localização indicada pelo teste, o paciente poderá precisar de exames de imagem, procedimentos endoscópicos e, eventualmente, uma biópsia convencional.
Também existe a possibilidade de resultados falso-positivos, quando o exame aponta um sinal suspeito sem que o câncer seja confirmado. Essas situações podem provocar ansiedade e levar à realização de procedimentos adicionais, alguns invasivos.
O resultado negativo exige cautela semelhante. Como a sensibilidade não é de 100%, o teste pode deixar de identificar tumores existentes. Além disso, não oferece garantia de que a pessoa não desenvolverá câncer futuramente.
Por esse motivo, o Galleri não substitui exames preventivos já recomendados, como mamografia, colonoscopia e papanicolau. Pessoas que realizam esses procedimentos devem manter o acompanhamento médico habitual, independentemente do resultado do novo teste.
Exame pode ser realizado por pessoas que já tiveram câncer
A indicação principal é para adultos assintomáticos a partir dos 50 anos, faixa etária em que a incidência de diversos tipos de câncer aumenta.
Pessoas que já tiveram a doença também podem ser avaliadas para realizar o teste, desde que estejam em remissão completa, sem sinais de atividade do câncer, há mais de três anos.
O exame não é indicado para menores de 22 anos, gestantes, pacientes em tratamento oncológico ativo ou pessoas que já estejam passando por investigação de um possível tumor.
A proposta comercial é de realização anual, conforme indicação médica.
Quem tiver interesse, mas não possuir pedido médico, poderá recorrer a uma teleconsulta oferecida pela Genesis Genomics. Durante o atendimento, um profissional avaliará os fatores de risco e a pertinência do exame.
No Einstein, os pacientes recebem orientações sobre as possibilidades e limitações do teste antes da coleta, além de acompanhamento para interpretação dos resultados e definição de eventuais investigações complementares.
Disponibilidade deve ser ampliada no país
A oferta inicial ocorre nas unidades do Einstein e do Fleury, com previsão de expansão para outras regiões por meio da rede de laboratórios parceiros.
O Grupo Fleury possui centenas de unidades próprias e uma estrutura de apoio diagnóstico que atende mais de 9.300 laboratórios em aproximadamente 2.200 municípios brasileiros. Essa rede poderá facilitar a distribuição do exame para localidades que não possuem unidades das instituições responsáveis pelo lançamento.
O Einstein também pretende acompanhar os pacientes brasileiros submetidos ao Galleri para reunir informações sobre o desempenho da tecnologia na população nacional. A iniciativa busca produzir evidências próprias, já que as principais pesquisas disponíveis foram realizadas no exterior.
Nos Estados Unidos, o exame já é comercializado, mas ainda não recebeu aprovação definitiva da agência reguladora Food and Drug Administration (FDA). Em setembro, um comitê consultivo recomendou sua aprovação, embora especialistas tenham manifestado preocupações sobre as evidências de benefício clínico, a possibilidade de resultados incorretos e os custos de investigações posteriores.
A decisão final da agência permanece pendente.