Desde 1º de outubro os planos de saúde são obrigados a cobrir a mamografia digital independentemente da idade ou do gênero
(Imagem: Drazen Zigic/Magnific)
Desde 1º de outubro, os planos de saúde são obrigados a cobrir a mamografia digital independentemente da idade ou do gênero do paciente, desde que o exame tenha indicação médica. A mudança, aprovada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), amplia o acesso ao procedimento principalmente para pessoas que ficavam fora da faixa etária prevista anteriormente, entre elas mulheres jovens com fatores de risco para o câncer de mama.
Até então, a cobertura obrigatória da mamografia digital estava vinculada a uma Diretriz de Utilização (DUT) e alcançava mulheres de 40 a 69 anos. Com a retirada dessa restrição, a decisão passa a depender da avaliação clínica e da prescrição do médico responsável pelo paciente. A cobertura pode ser utilizada para rastreamento, investigação diagnóstica ou acompanhamento do tratamento.
A mudança foi aprovada pela Diretoria Colegiada da ANS em 3 de setembro, após consulta pública realizada entre junho e julho, e passou a valer justamente no início do Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.
Na prática, uma mulher de 35 anos, por exemplo, que receba indicação médica para realizar a mamografia digital não pode ter a cobertura negada pelo plano simplesmente por estar abaixo dos 40 anos.
A alteração também elimina a restrição de gênero. Isso é relevante porque, embora muito mais raro, o câncer de mama também pode atingir homens. Além disso, a cobertura pode alcançar homens trans e pessoas não binárias quando houver indicação clínica para o exame. A própria ANS afirma que a nova regra vale para todas as pessoas que necessitem da tecnologia.
Mudança não significa mamografia de rotina em qualquer idade
A ampliação da cobertura não deve ser confundida com uma recomendação para que todas as pessoas façam mamografia, independentemente da idade.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda atualmente o rastreamento mamográfico de rotina a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. A faixa prioritária foi ampliada em 2025 (anteriormente terminava aos 69 anos).
Mulheres de 40 a 49 anos e acima dos 74 também podem realizar o rastreamento no SUS por demanda, desde que sejam orientadas sobre os possíveis benefícios e riscos.
Já a mamografia com finalidade diagnóstica, utilizada para investigar uma alteração suspeita, pode ser solicitada em qualquer idade, de acordo com a avaliação médica. Em mulheres mais jovens, entretanto, a maior densidade das mamas pode reduzir a sensibilidade do exame, e outros métodos de imagem, como ultrassonografia e ressonância magnética, também podem integrar a investigação.
Essa diferença é fundamental: a nova norma da ANS trata de cobertura pelos planos, e não de uma mudança nas recomendações médicas de rastreamento populacional.
Mulheres de alto risco exigem avaliação individual
A retirada do limite etário pode ter impacto especialmente para pacientes que precisam de acompanhamento antes da idade prevista para o rastreamento de rotina.
Segundo o INCA, cerca de 5% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres consideradas de alto risco. Entre as condições associadas estão forte predisposição hereditária, incluindo alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 e em outros genes relacionados à doença, além de histórico de radioterapia na região do tórax em idade jovem para tratamento de linfoma de Hodgkin. Nesses casos, o Instituto recomenda acompanhamento clínico individualizado.
A idade continua sendo um dos principais fatores de risco para a doença: aproximadamente quatro em cada cinco casos de câncer de mama ocorrem depois dos 50 anos. Isso, porém, não significa que mulheres mais jovens estejam livres da doença.
Um levantamento divulgado neste mês chama atenção justamente para o estágio em que o câncer vem sendo descoberto entre pacientes jovens atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, elaborado pelo Observatório de Oncologia, ligado à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), em parceria com o Instituto Natura, analisou dados do Ministério da Saúde entre 2015 e 2025. Entre mulheres de 20 a 29 anos, sete em cada dez diagnósticos ocorreram nos estágios 3 ou 4 da doença. Na faixa dos 30 aos 39 anos, 62,7% foram identificados em estágio avançado.
A proporção diminui conforme aumenta a idade: foi de 54,6% entre 40 e 49 anos e de 47,9% entre 50 e 69 anos. Considerando todas as faixas etárias, metade dos casos diagnosticados no SUS em 2025 já estava em estágio avançado.
Brasil deve ter mais de 78 mil novos casos por ano
O câncer de mama é o tumor mais incidente entre as mulheres brasileiras quando excluídos os casos de câncer de pele não melanoma.
A estimativa mais recente do INCA aponta 78.610 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, o equivalente a uma média de aproximadamente 215 diagnósticos por dia. A doença deverá responder por cerca de 30% dos novos casos de câncer entre as mulheres no período.
O risco estimado é de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres no país, chegando a 88,29 por 100 mil na região Sudeste, a maior taxa entre as cinco regiões brasileiras.
Além do rastreamento na faixa recomendada, o INCA orienta que mulheres de todas as idades conheçam as próprias mamas e procurem atendimento diante de alterações suspeitas. Nódulo persistente, mudanças no formato ou aspecto da mama, alterações no mamilo e saída espontânea de líquido estão entre os sinais que precisam ser investigados.