O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal
(Imagem: Michala Garrison / Observatório da Terra da Nasa)
A possibilidade de formação de um novo fenômeno El Niño em 2026 já ultrapassa 90% e começa a preocupar produtores rurais, especialistas em clima e agentes do mercado agrícola. O alerta foi divulgado por meteorologistas ligados à Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), referência global em monitoramento climático, e reacende o temor de impactos severos sobre chuvas, temperaturas e produtividade no campo.
Segundo as projeções mais recentes, a chance de desenvolvimento do fenômeno entre maio e julho é de cerca de 60%, mas sobe rapidamente a partir da primavera no hemisfério sul, superando 90% entre setembro e novembro. Ainda há incertezas sobre a intensidade do evento, mas os modelos climáticos já indicam um cenário de atenção para o segundo semestre.
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação atmosférica global. No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: enquanto o Sul enfrenta excesso de chuvas e risco maior de enchentes, o Norte e parte do Nordeste tendem a sofrer com estiagens prolongadas e temperaturas extremas. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, frequentemente registram calor intenso e irregularidade nas precipitações.
Para o agronegócio, o fenômeno representa um desafio estratégico em um momento de recuperação após episódios recentes de eventos climáticos extremos. Culturas como soja, milho, café e cana-de-açúcar podem ser diretamente afetadas. No Sul, o excesso de chuva costuma prejudicar colheitas, aumentar doenças fúngicas e comprometer a qualidade dos grãos. Já em áreas do Cerrado e do Matopiba (nova fronteira agrícola do Brasil, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a preocupação é com atrasos no plantio e redução da disponibilidade hídrica.
O mercado também acompanha os possíveis reflexos econômicos. Especialistas avaliam que um El Niño forte pode pressionar preços de alimentos, elevar custos logísticos e impactar exportações agrícolas brasileiras. O temor ganhou força especialmente após os efeitos registrados entre 2023 e 2024, quando ondas de calor históricas e temporais severos provocaram perdas bilionárias em diversas regiões do país.
Mesmo com o avanço das previsões meteorológicas e do monitoramento climático, pesquisadores destacam que ainda é cedo para determinar a magnitude real dos impactos. O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) afirma que as projeções feitas nesta época do ano carregam elevado grau de incerteza, sobretudo em relação à intensidade do aquecimento das águas do Pacífico.
No campo, entretanto, produtores já começam a revisar estratégias para a próxima safra. O uso de tecnologias de irrigação, sementes mais resistentes e planejamento climático mais detalhado voltam ao centro das discussões em um setor cada vez mais dependente da estabilidade do clima para manter produtividade e competitividade global.