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Pressão fiscal

Governo federal enfrenta ‘aperto’ de R$ 105,5 bilhões no orçamento

11 ago 2026 - 10h45 Aliz Lambiazzi   atualizado às 11h00
Governo federal enfrenta ‘aperto’ de R$ 105,5 bilhões no orçamento O problema é que o limite de pagamentos disponível é menor (Imagem: Ricardo Stuckert/Flickr)

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem, neste momento, uma diferença de R$ 105,5 bilhões entre as despesas não obrigatórias que estão previstas para pagamento em 2026 e o limite financeiro disponível para que os órgãos federais façam esses desembolsos.

O cálculo consta de uma análise da Consultoria de Orçamentos do Senado Federal e inclui tanto despesas programadas para este ano quanto contas de exercícios anteriores que ainda não foram quitadas.

A restrição não significa, necessariamente, que o governo tenha de cancelar R$ 105,5 bilhões em despesas. Segundo o Ministério do Planejamento e Orçamento, os limites de pagamento são organizados ao longo do ano e podem ser revistos conforme a execução orçamentária e financeira.

Ainda assim, o levantamento do Senado chama atenção para a pressão sobre o orçamento, principalmente porque uma parcela significativa das despesas que aguardam pagamento corresponde aos chamados restos a pagar: compromissos assumidos em anos anteriores que ainda não foram totalmente liquidados.

Mais de R$ 330 bilhões estão na fila

De acordo com a análise, os ministérios e demais órgãos do governo federal têm aproximadamente R$ 330,9 bilhões em despesas não obrigatórias que podem demandar pagamento ao longo de 2026.

Desse total, R$ 226,3 bilhões correspondem a despesas previstas no próprio orçamento deste ano. Outros cerca de R$ 104 bilhões são restos a pagar de exercícios anteriores.

O problema é que o limite de pagamentos disponível é menor. Considerando o bloqueio orçamentário em vigor, os órgãos têm aproximadamente R$ 225,4 bilhões de espaço para desembolsos.

É dessa diferença que surge a restrição de R$ 105,5 bilhões, equivalente a 31,9% do total de despesas não obrigatórias consideradas no levantamento.

A Consultoria de Orçamentos do Senado ressalta que o mecanismo faz parte da forma como o governo administra o fluxo de pagamentos ao longo do exercício. Portanto, o valor não deve ser confundido com um bloqueio adicional de R$ 105,5 bilhões no orçamento.

Bloqueio ainda é de R$ 17,9 bilhões

A situação ocorre mesmo depois de o governo ter anunciado, em julho, um desbloqueio de R$ 5,7 bilhões no orçamento de 2026.

A medida reduziu de R$ 23,7 bilhões para R$ 17,9 bilhões o volume de despesas que permanecem bloqueadas para garantir o cumprimento do limite de gastos estabelecido pelo arcabouço fiscal.

O desbloqueio foi possível principalmente porque o governo revisou para baixo as estimativas para algumas despesas obrigatórias, como gastos com pessoal, benefícios previdenciários e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Ao mesmo tempo, houve aumento nas projeções de despesas obrigatórias na área da Saúde e com abono salarial e seguro-desemprego.

O governo também informou que não seria necessário realizar um novo contingenciamento para cumprir a meta fiscal, projetando resultado de R$ 10,8 bilhões dentro dos critérios utilizados pelo novo arcabouço fiscal.

A análise do Senado, porém, mostra que existe uma questão adicional: mesmo considerando os limites atualmente estabelecidos, o espaço financeiro disponível para pagamentos é inferior ao conjunto de despesas não obrigatórias que podem chegar à etapa de desembolso.

Saúde e Educação concentram parte da pressão

Entre os ministérios, Saúde e Educação aparecem entre os mais afetados em valores absolutos.

A Saúde possui cerca de R$ 15,1 bilhões em restos a pagar, o maior estoque entre os órgãos analisados. A restrição estimada para a pasta chega a R$ 13,8 bilhões.

O problema não é apenas contábil. Entre as despesas que podem sofrer o impacto estão ações relacionadas à estruturação de unidades especializadas de saúde e procedimentos de média e alta complexidade, além de outras iniciativas que dependem de investimentos e transferências federais.

Na Educação, a restrição estimada também chega a R$ 13,8 bilhões. Entre as despesas que podem ser pressionadas estão a compra e distribuição de livros didáticos, investimentos em educação infantil e o funcionamento de universidades e institutos federais.

As pastas, entretanto, afirmam que a situação não representa uma interrupção automática dos serviços.

O Ministério da Saúde informou que o decreto não compromete a continuidade dos serviços prestados à população nem a execução dos programas prioritários. Segundo a pasta, os recursos disponíveis serão distribuídos de acordo com o andamento das atividades e das entregas.

O Ministério da Educação afirmou que é normal que parte das despesas empenhadas tenha cronogramas de pagamento que ultrapassem o ano em que foram contratadas. A pasta também disse que, caso seja necessário ampliar o limite financeiro até o fim de 2026, negociará a adequação com a equipe econômica.

Esporte e Turismo têm maior impacto proporcional

Quando a análise considera o peso da restrição em relação ao volume de despesas de cada órgão, a situação muda.

O Ministério do Esporte apresenta uma restrição estimada em R$ 774,9 milhões, equivalente a 57,9% das despesas consideradas no levantamento.

No Ministério do Turismo, a diferença chega a R$ 551,5 milhões, ou 55,1% do orçamento analisado.

O Ministério do Esporte afirmou que, até o momento, não há comprometimento da execução de suas políticas e programas e que continuará dialogando com os órgãos centrais do governo para garantir a execução do orçamento autorizado.

O Ministério do Turismo não se manifestou.

Além dos ministérios, a restrição também alcança R$ 44,9 bilhões em emendas parlamentares, segundo a análise da Consultoria de Orçamentos do Senado.

Restos a pagar viram pressão permanente

Um dos principais pontos de preocupação levantados pela análise é o crescimento dos restos a pagar.

Essas despesas correspondem a compromissos que foram empenhados pelo governo, mas que ainda não foram pagos. Quando o pagamento não ocorre dentro do exercício, o compromisso é transferido para os anos seguintes.

O estoque vem crescendo de forma significativa. No início de 2025, os restos a pagar somavam R$ 310,8 bilhões. Um ano depois, o montante chegou a R$ 391,6 bilhões.

Há dez anos, o estoque era de R$ 186,3 bilhões.

Na prática, o aumento cria uma espécie de orçamento acumulado, no qual despesas de anos anteriores passam a disputar espaço com os gastos programados para o exercício atual.

Quanto maior o estoque, maior a parcela do limite financeiro que precisa ser destinada ao pagamento de compromissos antigos, reduzindo a margem para novas despesas e investimentos.

Despesas podem ficar para 2027

A principal consequência apontada pelos consultores do Senado é a possibilidade de parte das despesas previstas para 2026 não ser executada integralmente neste ano.

Caso isso aconteça, os compromissos poderão ser transferidos para exercícios seguintes, ampliando novamente o estoque de restos a pagar.

O efeito pode chegar ao orçamento de 2027, que será executado pelo governo eleito nas eleições presidenciais de outubro.

Entre as áreas potencialmente afetadas estão investimentos, obras, manutenção de estruturas públicas e programas que dependem de desembolsos ao longo do ano.

Isso significa que uma despesa planejada para 2026 pode acabar pressionando o orçamento do próximo governo, caso não seja paga dentro do exercício atual.

Governo diz que limite pode ser revisto

O Ministério do Planejamento e Orçamento afirma que a diferença identificada pela Consultoria do Senado não representa uma falta definitiva de recursos.

Segundo a pasta, o decreto de programação orçamentária e financeira tem justamente a função de organizar os desembolsos da União ao longo do ano, de acordo com as metas fiscais e com o ritmo de execução das despesas.

O ministério também destaca que os próprios instrumentos de programação permitem alterar os cronogramas de pagamento.

Na avaliação do governo, portanto, a existência de despesas acima do limite disponível em determinado momento não significa que todos esses gastos deixarão de ser pagos.

Os ministros do Planejamento e da Fazenda podem ajustar os cronogramas de desembolso conforme a evolução da execução orçamentária e financeira.

A questão, agora, é saber quanto desse espaço poderá ser ampliado até o fim do ano e quais despesas terão prioridade caso os limites permaneçam pressionados.

Enquanto isso, o crescimento dos restos a pagar mantém aberta uma questão estrutural para as contas públicas: como evitar que compromissos de anos anteriores continuem consumindo uma parcela crescente do orçamento destinado às despesas do ano corrente.

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