O movimento deixou Flávio Bolsonaro sem uma coligação nacional com os principais partidos do bloco
(Imagem: Vittor Sales/Flickr)
Partidos do Centrão chegam à campanha eleitoral de 2026 concentrados em ampliar ou preservar suas bancadas na Câmara e no Senado, enquanto mantêm distância formal da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e preservam canais de diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estratégia, relatada por dirigentes partidários, passa pela avaliação de que uma bancada numerosa no Congresso garante poder de negociação independentemente de quem vencer a disputa pelo Palácio do Planalto. PP, União Brasil e Republicanos estão entre as siglas que optaram pela neutralidade na eleição presidencial, deixando seus diretórios estaduais livres para construir alianças de acordo com as disputas locais.
O movimento deixou Flávio Bolsonaro sem uma coligação nacional com os principais partidos do bloco. O senador foi oficializado pelo PL como candidato à Presidência em convenção realizada em julho. A ata registrada na Justiça Eleitoral mostra que a indicação recebeu 230 votos favoráveis, uma abstenção e nenhum voto contrário.
A decisão das legendas de não integrar formalmente a campanha do PL, porém, não significa alinhamento nacional automático com Lula. A estratégia permite que os partidos negociem apoios diferentes nos Estados e mantenham interlocução tanto com o governo quanto com forças de oposição.
Na Paraíba, por exemplo, o Republicanos manteve neutralidade nacional, mas construiu um palanque estadual que apoia Lula. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), é uma das principais lideranças da sigla e tem interesse direto na eleição de aliados no Estado.
Congresso ganha peso na estratégia
A composição do Congresso é considerada estratégica porque o próximo presidente dependerá das bancadas eleitas em outubro para aprovar projetos, mudanças constitucionais e medidas econômicas, além de negociar o Orçamento e a liberação de emendas parlamentares.
A eleição deste ano renovará as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 54 das 81 vagas do Senado. Com dois terços do Senado em disputa, o pleito ganha peso adicional para os partidos interessados em ampliar sua influência sobre decisões legislativas e indicações que dependem da aprovação dos senadores.
O movimento ocorre em um cenário no qual as principais lideranças do Legislativo mantêm canais abertos com o governo Lula. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), retomou recentemente a interlocução com o presidente depois de um período de afastamento.
Na segunda-feira (17), Lula e Alcolumbre participaram juntos de uma agenda da Petrobras no Amapá e trocaram elogios publicamente. O presidente agradeceu ao senador pelo andamento de três propostas consideradas importantes pelo governo: a PEC da Segurança Pública, a redução da jornada de trabalho e a política para minerais críticos. Foi o primeiro compromisso público dos dois depois da reaproximação.
Na Câmara, o governo também mantém negociações diretas com Hugo Motta. Entre as pautas recentes discutidas entre os dois Poderes estão mudanças no limite de faturamento dos microempreendedores individuais (MEIs) e projetos relacionados à política fiscal.
Essa interlocução não transforma automaticamente os presidentes das Casas ou seus partidos em integrantes da campanha de Lula. Ela mostra, porém, que as relações institucionais e políticas entre o Planalto e dirigentes do Centrão continuam funcionando mesmo durante a disputa eleitoral.
Flávio tenta romper isolamento
A dificuldade de atrair partidos de centro tornou-se um dos desafios da candidatura de Flávio Bolsonaro. O Republicanos decidiu não formar coligação nacional com o PL, enquanto PP e União Brasil também seguiram caminho de neutralidade, permitindo acordos regionais distintos.
A campanha do senador aposta na força eleitoral do bolsonarismo e na associação direta com o ex-presidente Jair Bolsonaro para compensar a ausência de uma aliança nacional mais ampla. O lançamento da campanha, no último domingo (16), ocorreu em Copacabana (RJ), palco tradicional das grandes manifestações bolsonaristas.
Apesar do isolamento partidário, Flávio permanece como principal adversário de Lula nas pesquisas de intenção de voto. Levantamento BTG Pactual/Nexus divulgado na segunda-feira (17) mostrou Lula com 41% e Flávio com 36% no primeiro turno. Em uma eventual disputa direta, os dois aparecem tecnicamente empatados: 47% para o petista e 44% para o candidato do PL, considerando margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa ouviu 2.003 eleitores entre os dias 14 e 16 de agosto e está registrada no TSE sob o número BR-03317/2026.
A estratégia dos partidos do Centrão, portanto, mantém aberta uma possibilidade importante para o pós-eleição: quem conquistar a Presidência terá de negociar com um Congresso no qual essas legendas pretendem continuar exercendo papel decisivo.