O processo envolve dez empresas do grupo
(Imagem: Divulgação/Casas Bahia)
As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) chegaram a despencar 36% nesta segunda-feira (17), após a varejista divulgar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e entrar com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas.
Na mínima do dia, os papéis chegaram a ser negociados a R$ 0,42, depois de terem fechado a sexta-feira (14) a R$ 0,66. Mesmo recuperando parte das perdas ao longo do pregão, BHIA3 permaneceu entre os piores desempenhos da Bolsa nesta segunda-feira.
O preço levou as ações da Casas Bahia ao menor patamar desde o fim de 2023. Naquele ano, os papéis chegaram à faixa dos R$ 0,50 antes de a companhia realizar um grupamento na proporção de 25 para 1 (cada 25 ações foram reunidas em uma, sem alteração do capital social). O grupamento passou a valer em dezembro de 2023 e levou a cotação, já ajustada, para a casa dos R$ 11.
A forte reação do mercado ocorre depois que o Grupo Casas Bahia protocolou, no domingo (16), pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O processo envolve dez empresas do grupo.
Dos R$ 17,3 bilhões em obrigações incluídas no pedido, aproximadamente R$ 16,4 bilhões correspondem a credores quirografários, que não possuem garantia real; R$ 754 milhões são créditos trabalhistas; e R$ 154 milhões, créditos de microempresas e empresas de pequeno porte.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões
A crise ganhou uma nova dimensão com o balanço do segundo trimestre. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, ante resultado negativo de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025.
Grande parte desse rombo, porém, não representa saída efetiva de dinheiro do caixa. O resultado foi afetado por R$ 9,1 bilhões em efeitos contábeis não recorrentes, relacionados ao redimensionamento da operação e sem impacto imediato no caixa. Sem esses efeitos, o prejuízo líquido ajustado foi de R$ 978 milhões.
Entre os ajustes está uma baixa de aproximadamente R$ 5,7 bilhões em créditos tributários diferidos.
A receita líquida cresceu 1,6% no trimestre e ficou próxima de R$ 7 bilhões. Já as despesas com vendas avançaram 17%, para R$ 1,8 bilhão.
O resultado levou o patrimônio líquido da companhia para o campo negativo, em R$ 8,1 bilhões. A varejista acumula oito trimestres consecutivos de prejuízo.
298 lojas fechadas
A recuperação judicial ocorre depois de uma forte redução da estrutura da Casas Bahia. A companhia fechou 298 lojas, o equivalente a 28,7% da rede, que encerrou 2025 com 1.042 unidades. O fechamento das unidades foi confirmado no balanço do segundo trimestre divulgado pela própria empresa.
A varejista também reduziu o quadro de funcionários. O número de desligamentos varia conforme as apurações: há estimativas de cerca de 2 mil a 3 mil trabalhadores demitidos. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo informou que pretende recorrer à Justiça para questionar as demissões em massa.
Os cortes fazem parte da nova etapa de reestruturação da companhia, que pretende concentrar a operação em lojas e canais considerados mais rentáveis, reduzir despesas e aumentar a geração de caixa.
As dificuldades financeiras também já atingem os estoques. No segundo trimestre, o volume caiu mais de 20%, enquanto o período médio de disponibilidade de produtos recuou de 95 para 75 dias. A restrição de crédito junto a fornecedores tem dificultado a reposição de mercadorias.
A companhia também busca obter cerca de R$ 1 bilhão em financiamento DIP, modalidade de crédito destinada a empresas em recuperação judicial, para reforçar o caixa durante o processo de reestruturação.
Juros altos e crédito restrito
No pedido apresentado à Justiça, o Grupo Casas Bahia aponta a combinação de juros elevados, restrição de crédito e aumento dos custos financeiros como fatores que agravaram a situação.
A companhia afirma enfrentar sua pior crise financeira desde a abertura de capital. A taxa Selic, que chegou a 2% ao ano em 2020, está atualmente em 14% ao ano, cenário que encarece tanto o financiamento da empresa quanto o crédito ao consumidor, especialmente relevante para uma varejista fortemente ligada à venda de bens duráveis.
O grupo também pediu à Justiça medidas para evitar o vencimento antecipado de aproximadamente R$ 10 bilhões em contratos financeiros e impedir que bancos retenham recursos utilizados como garantia.
Segunda grande renegociação em dois anos
A Casas Bahia já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2024, quando renegociou aproximadamente R$ 4,8 bilhões em dívidas.
Desta vez, a empresa optou pela recuperação judicial, processo mais amplo e realizado sob supervisão da Justiça. A companhia afirma que suas lojas, vendas on-line, entregas e demais atividades continuarão funcionando durante a reestruturação.
O pedido também ocorre em meio a mudanças na administração. O diretor jurídico Fábio Spina e os conselheiros Jackson Medeiros de Farias Schneider e Rogério Paulo Calderón Peres renunciaram aos cargos durante o processo que culminou na aprovação da recuperação judicial.
A partir de agora, a companhia terá de apresentar um plano para reorganizar o pagamento aos credores e tentar recuperar a capacidade financeira enquanto mantém a operação.