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Dança

Aos 14 anos, bailarina de Cotia é aceita em duas das mais prestigiadas escolas de ballet da Rússia

07 ago 2026 - 15h30 Aliz Lambiazzi   atualizado às 15h32
Aos 14 anos, bailarina de Cotia é aceita em duas das mais prestigiadas escolas de ballet da Rússia Antonella embarca para a Rússia no final de agosto de 2026 (Imagem: Divulgação)

Aos 14 anos, a bailarina Antonella Bichara Vitor de Oliveira, conhecida artisticamente como Antonella Bichara, está prestes a dar um dos passos mais importantes de sua trajetória no ballet clássico. Natural de Cotia (SP), a jovem foi aprovada em duas das mais respeitadas instituições de formação em dança da Rússia: a Escola Coreográfica de Perm e a Academia Estatal de Coreografia de Moscou (Academia do Ballet Bolshoi).

A decisão da família foi pela Academia de Moscou, considerada uma das escolas de ballet mais tradicionais do mundo. Fundada no século XVIII, a instituição tem ligação direta com a formação de grandes nomes da dança russa e com o Teatro Bolshoi, uma das companhias mais reconhecidas internacionalmente. A academia mantém a tradição do método Vaganova, sistema de ensino que valoriza precisão técnica, força, musicalidade e expressividade artística.

Antonella embarca para a Rússia no final de agosto de 2026, acompanhada pelos pais, Luciana Bichara e William Vitor, para iniciar uma nova etapa de formação que deve durar entre três e quatro anos letivos.

A conquista é resultado de uma trajetória iniciada ainda na primeira infância. Aos 2 anos e 3 meses, Antonella começou seus estudos na Escola de Aprimoramento e Formação em Ballet Clássico Patricia Ballet, em Cotia, instituição fundada em 1981 e administrada por sua mãe desde 2014.

“A conexão com a dança começou antes mesmo do nascimento, ao ouvir música clássica desde o útero. Ao começar a andar, Antonella já rodopiava pela casa. O incentivo definitivo veio de filmes infantis como Barbie em As Sapatilhas Mágicas e Angelina Ballerina, que a fizeram pedir por ‘Baié’ desde os 2 aninhos, motivando sua matrícula na Patricia Ballet”, conta a mãe Luciana.

Da escola em Cotia ao Bolshoi Brasil

O talento da jovem começou a chamar atenção ainda na infância. Aos 8 anos, Antonella foi aprovada na concorrida Escola de Dança do Theatro Municipal de São Paulo, onde aprofundou sua formação técnica.

Em 2023, aos 11 anos, veio uma das maiores conquistas até então: a aprovação na seleção nacional da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville (SC), onde iniciou os estudos em 2024.

A instituição catarinense é a única filial estrangeira do Teatro Bolshoi de Moscou e funciona desde 2000. A escola segue a metodologia russa Vaganova, além de oferecer formação em dança contemporânea e disciplinas complementares.

Atualmente, Antonella mora em Joinville para cumprir a rotina de formação avançada. Ela cursa o 5º ano da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e mantém os vínculos com Cotia durante férias e recessos.

A rotina de uma bailarina em formação profissional exige disciplina intensa. Durante a semana, Antonella concilia escola regular e treinos.

“Das 7h às 11h30, ela frequenta o ensino regular no 9º ano. A partir das 13h, dedica-se de 6 a 8 horas diárias de treino intensivo de ballet, de segunda a sexta-feira. Aos sábados, mantém o ritmo com aulas extras e atividades complementares de fortalecimento, como musculação, pilates e natação”, explica Luciana, orgulhosa.

Aprovação em duas escolas russas

O primeiro resultado positivo veio em janeiro de 2026, com a aprovação para a Escola Coreográfica de Perm. Poucos meses depois, em abril, chegou a confirmação mais aguardada: Antonella também havia sido aceita pela Academia Estatal de Coreografia de Moscou.

A aprovação simultânea surpreendeu a própria bailarina.

“Sinceramente, não esperava ser aprovada nas duas instituições ao mesmo tempo. Entrar em uma escola russa de ponta já é o sonho mais difícil para qualquer bailarina estrangeira, dado o rigor técnico e as exigências severas em relação ao biotipo físico. Quando o resultado de Perm veio em janeiro, a felicidade já foi imensa. Ver a aprovação de Moscou chegar logo em abril foi um choque e uma surpresa indescritíveis. Superou totalmente as expectativas iniciais e mostrou que o trabalho feito no Brasil estava no caminho certo”, afirma Antonella.

A seleção para as escolas russas envolve avaliações técnicas, artísticas e físicas. O processo foi realizado de forma on-line, com envio de vídeos sem cortes, exames e materiais seguindo critérios definidos pelas instituições.

Segundo a família, a banca avaliadora analisou aspectos como flexibilidade, alinhamento corporal, musicalidade, execução técnica e potencial artístico.

A escolha por Moscou

Embora a Escola Coreográfica de Perm também seja uma referência mundial na formação de bailarinos, a escolha pela Academia de Moscou teve relação direta com a história de Antonella no Brasil.

“O principal fator de escolha foi o peso histórico institucional e o alinhamento pedagógico imediato. Por já cursar o 5º ano de formação na única filial estrangeira da instituição, a ida para a matriz em Moscou representa uma transição técnica orgânica perfeita”, diz.

A Academia de Moscou também representa uma continuidade do caminho iniciado em Joinville, onde Antonella aprendeu a metodologia que agora levará para a Rússia.

Uma mudança que envolve toda a família

A trajetória de Antonella também transformou a vida dos pais. Luciana, que é nutricionista, assumiu a administração da Patricia Ballet em 2014. O pai, William Vitor, veterinário, também passou a participar da gestão da escola para apoiar a formação da filha.

Para acompanhar a filha em Joinville, Luciana mudou-se com Antonella, enquanto William permaneceu em Cotia para manter a estrutura familiar e financeira.

“Os sacrifícios foram imensos, dividiram nossa geografia e contaram com uma rede de amor familiar insubstituível. Para que eu pudesse estudar em Joinville, minha mãe mudou-se comigo, enquanto meu pai permaneceu em Cotia mantendo a retaguarda financeira. Ao longo de todo esse caminho, fomos amparados pelo apoio emocional e pelo auxílio financeiro essencial dos meus avós maternos e paternos”, relata Antonella.

A bailarina também carrega a memória da avó paterna, Josefa Martins de Oliveira, que morreu em dezembro de 2025.

“Ela foi uma das maiores incentivadoras da minha formação e da minha carreira desde o início. Essa conquista na Rússia também é dela, e sinto que cada passo que darei em Moscou carregará a memória do amor e do incentivo que ela me deu em vida”, afirma a jovem.

Desafio agora é amadurecer longe de casa

Apesar da realização do sonho, a mudança para outro país aos 14 anos traz novos desafios.

“Até agora, o maior desafio foi gerenciar a saudade e a distância de quem ficou na nossa cidade natal. Embora minha mãe tenha se mudado comigo para Joinville para me dar suporte, meu pai, meus avós, tios e amigos de infância continuaram em Cotia, o que já exigia muito equilíbrio emocional. No entanto, olhando para o futuro, acredito que o meu maior desafio será de fato a transição para a Rússia: viver em um alojamento fechado, sem o colo físico da minha mãe por perto no dia a dia. Lidar com essa nova dimensão da saudade, enquanto encaro a pressão dos treinos em outro país, será o teste definitivo de amadurecimento”, diz.

Mesmo diante das dificuldades, desistir nunca foi uma opção.

“Desistir do ballet, nunca, porque a dança é a minha própria identidade e o meu amor por ela sempre foi maior do que qualquer barreira. Mas é natural que o peso da rotina traga momentos de extrema exaustão física e fragilidade emocional. Na alta performance, há dias em que o corpo atinge o limite da dor, em que uma correção técnica não se encaixa de primeira ou em que a distância física do meu pai, dos meus avós e dos meus amigos de infância em Cotia aperta o peito. A mente balança quando o cansaço acumula, mas eu entendi cedo que sentir cansaço é diferente de querer desistir”, enfatiza Antonella.

Sonho é chegar aos grandes palcos do mundo

Na Rússia, Antonella espera aprofundar a técnica e conhecer ainda mais a tradição do ballet clássico.

“Espero absorver em sua totalidade a essência e a tradição do método Vaganova original. Mais do que dominar a técnica precisa, o alinhamento geométrico e a força física que tornaram o ensino russo famoso no mundo inteiro, eu quero aprender a expressividade dramática característica deles. A Academia de Moscou é conhecida por uma dança forte, imponente e profundamente teatral; portanto, espero aprender a preencher o palco com alma e transformar a técnica pura em pura emoção”, conta.

O maior objetivo profissional é alcançar o posto de primeira bailarina de uma grande companhia internacional: “eu quero ter a oportunidade de dar vida aos grandes papéis do repertório clássico nos palcos mais prestigiados do planeta, levando a expressividade e a força do ballet que carrego em mim para o público do mundo inteiro”.

Mesmo com os planos internacionais, Antonella diz que pretende trazer todo o aprendizado de volta ao Brasil.

“O Brasil estará sempre nos meus planos de longo prazo. Eu tenho o desejo profundo de retornar ao meu país no futuro para retribuir tudo o que recebi, compartilhando o conhecimento que adquiri no exterior para inspirar, incentivar e abrir portas para a nova geração de bailarinos brasileiros”, completa.

Antes de embarcar para a Rússia, Antonella deixa uma mensagem para crianças e adolescentes que também sonham em construir uma carreira na dança.

“Nunca limitem o tamanho dos seus sonhos, não importa quão distantes eles pareçam hoje. O caminho da dança exige muita disciplina, foco e abdicação, e haverá dias de cansaço e de dores. Mas quando você coloca o seu coração e a sua alma em cada movimento na barra, o universo abre as portas. Tenham paciência com o próprio processo, ouçam as correções dos seus professores com humildade e confiem na força do trabalho diário. Se uma menina de Cotia conseguiu abrir as asas rumo ao Bolshoi de Moscou, vocês também podem conquistar o mundo. Acreditem em si mesmos e dancem com a alma”, finaliza a jovem que é uma das grandes promessas do ballet brasileiro.

Todo apoio é bem-vindo

A família de Antonella também busca apoio para a nova etapa da carreira da filha.

Ao longo de toda a trajetória de Antonella, os custos com sua formação foram assumidos pela família, graças à união de esforços dos pais e dos avós. Agora, com a mudança para a Rússia e o aumento das despesas para manter a bailarina em Moscou, a expectativa é conquistar o apoio de empresas e patrocinadores interessados em investir em sua formação e no desenvolvimento técnico na Academia do Ballet Bolshoi.

Interessados podem conhecer mais sobre a Antonella no Instagram @_antonella_bichara. O e-mail de contato da mãe, Luciana, é llubichara@gmail.com. Contribuições podem ser feitas pelo PIX escoladedancapatriciaballet@gmail.com

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