A sessão tinha 15 processos previstos na pauta, todos sob relatoria do magistrado
(Imagem: Juarez Rodrigues/TJMG)
O juiz Milton Lívio Lemos Salles, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), foi afastado cautelarmente de suas funções após aparecer bebendo vinho e fumando durante uma sessão virtual de julgamento. O episódio ocorreu na segunda-feira (10), durante uma reunião do 4º Núcleo de Justiça 4.0 – Cível Família, e levou à interrupção dos trabalhos.
Nas imagens da videoconferência, que repercutiram nas redes sociais, Salles aparece levando uma garrafa de vinho diretamente à boca. Em outro momento, o magistrado acende um cigarro com um maçarico e fuma diante da câmera durante a sessão.
A sessão tinha 15 processos previstos na pauta, todos sob relatoria do magistrado, e foi interrompida quando ainda restavam três casos para julgamento.
TJ-MG confirma afastamento por unanimidade
A reação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais foi rápida. Inicialmente, o corregedor-geral de Justiça, desembargador Raimundo Messias Júnior, determinou cautelarmente o afastamento imediato de Milton Lívio Lemos Salles e instaurou uma sindicância para apurar sua conduta.
Horas depois, ainda na tarde de terça-feira (11), o Órgão Especial do TJ-MG se reuniu em sessão extraordinária presencial e confirmou, por unanimidade, o afastamento cautelar do magistrado.
A decisão veio acompanhada de uma série de restrições. O Tribunal determinou a suspensão imediata das credenciais e permissões de acesso funcional de Salles aos sistemas judiciais e administrativos do TJ-MG e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), preservando apenas os meios necessários para que ele acompanhe os procedimentos dos quais seja parte e exerça seu direito de defesa.
Enquanto permanecer afastado, o juiz também não poderá ingressar, para fins funcionais, em fóruns, prédios administrativos e outras instalações do TJ-MG, nem utilizar veículos oficiais do Tribunal.
O Órgão Especial determinou ainda a suspensão do direito ao porte e ao registro de arma de fogo do magistrado e ordenou que a decisão seja comunicada à Polícia Federal e ao Exército Brasileiro.
Os processos que estavam sob a relatoria de Salles serão redistribuídos, e um magistrado de primeiro grau será convocado para substituí-lo no 4º Núcleo de Justiça 4.0 – Cível Família. A sindicância instaurada pela Corregedoria-Geral de Justiça tramita sob sigilo.
CNJ também afasta magistrado
O caso também chegou ao Conselho Nacional de Justiça. Na terça-feira (11), o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, determinou o afastamento de Salles da totalidade de suas atividades no TJ-MG e instaurou reclamação disciplinar para apurar a conduta do magistrado.
A medida do CNJ tem caráter cautelar e permanece válida até nova deliberação da Corregedoria Nacional de Justiça. O magistrado também fica impedido de acessar as dependências do Tribunal e seus sistemas eletrônicos durante o afastamento.
Quase três décadas na magistratura
Milton Lívio Lemos Salles ingressou na magistratura mineira em 1998. Ao longo da carreira, passou por diferentes comarcas do Estado antes de atuar em Belo Horizonte.
Por 17 anos, foi titular da 4ª Vara Criminal da capital mineira. Atualmente, atua como juiz de direito auxiliar de segundo grau e integrava o 4º Núcleo de Justiça 4.0 – Cível Família do TJ-MG.
O afastamento determinado agora é cautelar, ou seja, ocorre enquanto os fatos são apurados e não representa, por si só, uma conclusão sobre eventual punição definitiva.
Medida protetiva
Além do procedimento relacionado à sessão virtual, Salles também é alvo de uma medida protetiva de urgência relacionada a um caso de violência doméstica.
A Polícia Civil de Minas Gerais confirmou que formalizou o pedido de medida protetiva em favor de uma mulher que procurou a Casa da Mulher Mineira em abril de 2026. A unidade é especializada no acolhimento e atendimento de mulheres em situação de violência doméstica, familiar e sexual.
Segundo a Polícia Civil, a mulher compareceu ao local, relatou os fatos e foi formalizado o pedido de proteção. O TJ-MG confirmou a existência da medida protetiva, mas informou que não pode fornecer detalhes sobre o caso porque o processo tramita em segredo de Justiça.
Juiz se manifesta após repercussão
Após o episódio ganhar repercussão, Salles divulgou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou ser vítima de difamação. Na gravação, o magistrado também fez acusações de corrupção envolvendo integrantes e instituições do Judiciário.
As alegações foram feitas pelo próprio juiz e não foram acompanhadas, no vídeo, de documentos ou outras evidências que as comprovassem.
As apurações relacionadas à conduta de Salles seguem nas instâncias competentes.