Dados são do mais recente Relatório Global do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids
(Imagem: Jcomp / Magnific)
Em 2010, o mundo registrava aproximadamente 2,1 milhões de novas infecções por ano. Em 2025, o indicador recuou para 1,2 milhão - a marca mais baixa em três décadas. Esse avanço expressivo reflete o impacto de terapias antirretrovirais (Tarv) eficientes e a expansão de métodos modernos de prevenção em diversas partes do mundo. Por outro lado, o relatório alerta que o progresso é desigual.
O Brasil viu o volume de novos casos crescer, ao lado de Afeganistão, Argélia, Armênia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagáscar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela. Embora o País acumule conquistas recentes importantes - como a certificação pela eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho) e a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) -, o volume total de pessoas infectadas sobe em recortes populacionais específicos, como homens gays, transgêneros e trabalhadores do sexo.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, até 2013 o País não contabilizava novos casos de infecção por HIV, somente de aids. De acordo com o último boletim, em 2024 foram contabilizados 39,2 mil novos casos - uma alta de 21,9% em relação ao registrado em 2014. Estima-se que quase 1,7 milhão vive com HIV hoje.
Em contrapartida, a mortalidade por HIV no Brasil está diminuindo, caindo 20% entre 2014 e 2024 e chegando, pela primeira vez, ao patamar de menos de 10 mil mortes em 2025. Entre os fatores que ainda contribuem para mortalidade estão menor escolaridade, ser solteiro e viver em áreas vulneráveis (como na Região Norte). O recorte ainda destaca pretos, mulheres e jovens.
O Brasil também aumentou em 41% o número de pessoas com acesso a medicamentos de prevenção ao menos uma vez no último ano. E ampliou em até 10% o orçamento público voltado para ações de prevenção e tratamento do HIV. O relatório destaca que o diagnóstico tardio e as desigualdades limitam os resultados.
COMBINAÇÃO DE FATORES
Especialistas e lideranças do setor ouvidos no evento no Rio apontam que a alta de casos no País é resultado da combinação de fatores sociais, econômicos e estruturais, citando especificamente o fim das grandes campanhas de conscientização, a persistência do estigma e a discriminação em algumas populações, as desigualdades no acesso à PrEP, os cortes de financiamento e ainda a ilusão do fim da ameaça entre os mais jovens. "Precisamos trabalhar melhor com comunicação e educação sobre formas de contágio e prevenção nas populações mais vulnerabilizadas", afirmou o diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, o infectologista Estevão Portela. "Aí esbarramos, às vezes, em dificuldades com o conservadorismo, que cria barreiras para uma abordagem mais aberta destas questões."
Na análise de Portela, a questão da PrEP também é crucial. "Também temos dificuldades com o escalonamento de PrEP, que talvez seja a mais importante estratégia de prevenção", disse. "O atendimento no âmbito da PrEP permite também discutir formas de mitigação de risco, como o uso de preservativos, a vacinação contra algumas infecções sexualmente transmissíveis, além do tratamento adequado delas."
Segundo o infectologista, na maior parte dos Estados ainda não há estratégias de capilaridade para que a PrEP chegue especialmente a populações que, normalmente, têm menos acesso aos serviços de saúde. "Para esses grupos, também seria fundamental o acesso à PrEP injetável, que melhora a adesão ao tratamento e, com isso, a eficácia dessa abordagem", acrescentou Portela.
AMÉRICA LATINA
Em toda a América Latina, o aumento do número de novos casos chegou a 25% entre 2010 e 2025, segundo o novo relatório. Para a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, combater esse avanço não é apenas uma questão de recursos financeiros, mas também de "direitos humanos e acesso com dignidade" aos serviços de saúde. "O HIV é uma doença impulsionada pela desigualdade. Esta não é uma região pobre, mas é profundamente desigual. E, na América Latina, as novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave", explicou Winnie. "E as razões por trás disso estão relacionadas a estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Se enfrentarmos esses problemas, o HIV poderá ser controlado na região em pouco tempo."
Winnie destacou a "revolução na prevenção", impulsionada por medicamentos injetáveis de longa duração, como o lenacapavir. "Mas inovação sem acesso não é avanço, é injustiça. O verdadeiro teste será garantir que esses medicamentos cheguem àqueles que mais precisam, a custos acessíveis", avalia.
O Brasil viu o volume de novos casos crescer, ao lado de Afeganistão, Argélia, Armênia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagáscar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela. Embora o País acumule conquistas recentes importantes - como a certificação pela eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho) e a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) -, o volume total de pessoas infectadas sobe em recortes populacionais específicos, como homens gays, transgêneros e trabalhadores do sexo.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, até 2013 o País não contabilizava novos casos de infecção por HIV, somente de aids. De acordo com o último boletim, em 2024 foram contabilizados 39,2 mil novos casos - uma alta de 21,9% em relação ao registrado em 2014. Estima-se que quase 1,7 milhão vive com HIV hoje.
Em contrapartida, a mortalidade por HIV no Brasil está diminuindo, caindo 20% entre 2014 e 2024 e chegando, pela primeira vez, ao patamar de menos de 10 mil mortes em 2025. Entre os fatores que ainda contribuem para mortalidade estão menor escolaridade, ser solteiro e viver em áreas vulneráveis (como na Região Norte). O recorte ainda destaca pretos, mulheres e jovens.
O Brasil também aumentou em 41% o número de pessoas com acesso a medicamentos de prevenção ao menos uma vez no último ano. E ampliou em até 10% o orçamento público voltado para ações de prevenção e tratamento do HIV. O relatório destaca que o diagnóstico tardio e as desigualdades limitam os resultados.
COMBINAÇÃO DE FATORES
Especialistas e lideranças do setor ouvidos no evento no Rio apontam que a alta de casos no País é resultado da combinação de fatores sociais, econômicos e estruturais, citando especificamente o fim das grandes campanhas de conscientização, a persistência do estigma e a discriminação em algumas populações, as desigualdades no acesso à PrEP, os cortes de financiamento e ainda a ilusão do fim da ameaça entre os mais jovens. "Precisamos trabalhar melhor com comunicação e educação sobre formas de contágio e prevenção nas populações mais vulnerabilizadas", afirmou o diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, o infectologista Estevão Portela. "Aí esbarramos, às vezes, em dificuldades com o conservadorismo, que cria barreiras para uma abordagem mais aberta destas questões."
Na análise de Portela, a questão da PrEP também é crucial. "Também temos dificuldades com o escalonamento de PrEP, que talvez seja a mais importante estratégia de prevenção", disse. "O atendimento no âmbito da PrEP permite também discutir formas de mitigação de risco, como o uso de preservativos, a vacinação contra algumas infecções sexualmente transmissíveis, além do tratamento adequado delas."
Segundo o infectologista, na maior parte dos Estados ainda não há estratégias de capilaridade para que a PrEP chegue especialmente a populações que, normalmente, têm menos acesso aos serviços de saúde. "Para esses grupos, também seria fundamental o acesso à PrEP injetável, que melhora a adesão ao tratamento e, com isso, a eficácia dessa abordagem", acrescentou Portela.
AMÉRICA LATINA
Em toda a América Latina, o aumento do número de novos casos chegou a 25% entre 2010 e 2025, segundo o novo relatório. Para a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, combater esse avanço não é apenas uma questão de recursos financeiros, mas também de "direitos humanos e acesso com dignidade" aos serviços de saúde. "O HIV é uma doença impulsionada pela desigualdade. Esta não é uma região pobre, mas é profundamente desigual. E, na América Latina, as novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave", explicou Winnie. "E as razões por trás disso estão relacionadas a estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Se enfrentarmos esses problemas, o HIV poderá ser controlado na região em pouco tempo."
Winnie destacou a "revolução na prevenção", impulsionada por medicamentos injetáveis de longa duração, como o lenacapavir. "Mas inovação sem acesso não é avanço, é injustiça. O verdadeiro teste será garantir que esses medicamentos cheguem àqueles que mais precisam, a custos acessíveis", avalia.
Por Roberta Jansen
FONTE: ESTADÃO CONTEÚDO
FONTE: ESTADÃO CONTEÚDO
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