São Paulo | 21ºC
Sáb, 03 de Outubro
Saúde

Brasil vai na contramão e casos de aids avançam 20%

31 jul 2026 - 09h44   atualizado às 11h22
Brasil vai na contramão e casos de aids avançam 20% Dados são do mais recente Relatório Global do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Imagem: Jcomp / Magnific)

O último Relatório Global do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), lançado na 26.ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), que ocorre no Rio de Janeiro, revela que as novas infecções por HIV caíram cerca de 43% no mundo desde 2010. No entanto, na contramão da tendência global, o Brasil registra um aumento de pelo menos 20% no mesmo período. Desde o início da epidemia de HIV-aids, o País sempre foi apontado como um modelo internacional - pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) - na prevenção e no tratamento da infecção. Agora, aparece como um dos 21 países em que o número de novas infecções cresceu nos últimos 15 anos.

Em 2010, o mundo registrava aproximadamente 2,1 milhões de novas infecções por ano. Em 2025, o indicador recuou para 1,2 milhão - a marca mais baixa em três décadas. Esse avanço expressivo reflete o impacto de terapias antirretrovirais (Tarv) eficientes e a expansão de métodos modernos de prevenção em diversas partes do mundo. Por outro lado, o relatório alerta que o progresso é desigual.

O Brasil viu o volume de novos casos crescer, ao lado de Afeganistão, Argélia, Armênia, Bangladesh, Congo, Costa Rica, Egito, Iêmen, Madagáscar, Níger, Paquistão, Paraguai, Peru, Filipinas, Quirguistão, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Tunísia e Venezuela. Embora o País acumule conquistas recentes importantes - como a certificação pela eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho) e a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) -, o volume total de pessoas infectadas sobe em recortes populacionais específicos, como homens gays, transgêneros e trabalhadores do sexo.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, até 2013 o País não contabilizava novos casos de infecção por HIV, somente de aids. De acordo com o último boletim, em 2024 foram contabilizados 39,2 mil novos casos - uma alta de 21,9% em relação ao registrado em 2014. Estima-se que quase 1,7 milhão vive com HIV hoje.

Em contrapartida, a mortalidade por HIV no Brasil está diminuindo, caindo 20% entre 2014 e 2024 e chegando, pela primeira vez, ao patamar de menos de 10 mil mortes em 2025. Entre os fatores que ainda contribuem para mortalidade estão menor escolaridade, ser solteiro e viver em áreas vulneráveis (como na Região Norte). O recorte ainda destaca pretos, mulheres e jovens.

O Brasil também aumentou em 41% o número de pessoas com acesso a medicamentos de prevenção ao menos uma vez no último ano. E ampliou em até 10% o orçamento público voltado para ações de prevenção e tratamento do HIV. O relatório destaca que o diagnóstico tardio e as desigualdades limitam os resultados.

COMBINAÇÃO DE FATORES

Especialistas e lideranças do setor ouvidos no evento no Rio apontam que a alta de casos no País é resultado da combinação de fatores sociais, econômicos e estruturais, citando especificamente o fim das grandes campanhas de conscientização, a persistência do estigma e a discriminação em algumas populações, as desigualdades no acesso à PrEP, os cortes de financiamento e ainda a ilusão do fim da ameaça entre os mais jovens. "Precisamos trabalhar melhor com comunicação e educação sobre formas de contágio e prevenção nas populações mais vulnerabilizadas", afirmou o diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, o infectologista Estevão Portela. "Aí esbarramos, às vezes, em dificuldades com o conservadorismo, que cria barreiras para uma abordagem mais aberta destas questões."

Na análise de Portela, a questão da PrEP também é crucial. "Também temos dificuldades com o escalonamento de PrEP, que talvez seja a mais importante estratégia de prevenção", disse. "O atendimento no âmbito da PrEP permite também discutir formas de mitigação de risco, como o uso de preservativos, a vacinação contra algumas infecções sexualmente transmissíveis, além do tratamento adequado delas."

Segundo o infectologista, na maior parte dos Estados ainda não há estratégias de capilaridade para que a PrEP chegue especialmente a populações que, normalmente, têm menos acesso aos serviços de saúde. "Para esses grupos, também seria fundamental o acesso à PrEP injetável, que melhora a adesão ao tratamento e, com isso, a eficácia dessa abordagem", acrescentou Portela.

AMÉRICA LATINA

Em toda a América Latina, o aumento do número de novos casos chegou a 25% entre 2010 e 2025, segundo o novo relatório. Para a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, combater esse avanço não é apenas uma questão de recursos financeiros, mas também de "direitos humanos e acesso com dignidade" aos serviços de saúde. "O HIV é uma doença impulsionada pela desigualdade. Esta não é uma região pobre, mas é profundamente desigual. E, na América Latina, as novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave", explicou Winnie. "E as razões por trás disso estão relacionadas a estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Se enfrentarmos esses problemas, o HIV poderá ser controlado na região em pouco tempo."

Winnie destacou a "revolução na prevenção", impulsionada por medicamentos injetáveis de longa duração, como o lenacapavir. "Mas inovação sem acesso não é avanço, é injustiça. O verdadeiro teste será garantir que esses medicamentos cheguem àqueles que mais precisam, a custos acessíveis", avalia.
Por Roberta Jansen
FONTE: ESTADÃO CONTEÚDO
Leia Também
Pix por aproximação deixa de ter limite de R$ 500; entenda o que muda
Flexibilidade Pix por aproximação deixa de ter limite de R$ 500; entenda o que muda
Mendonça oficia redes para seguirem parâmetros do TSE na remoção de posts sobre Nossa Senhora
CONTEÚDO ELEITORAL Mendonça oficia redes para seguirem parâmetros do TSE na remoção de posts sobre Nossa Senhora
Que horas começa a votação? Veja os horários de início e fim do primeiro turno
Eleições 2026 Que horas começa a votação? Veja os horários de início e fim do primeiro turno
Eleições 2026: bancada feminina pode chegar a 22 integrantes no Senado
Representatividade Eleições 2026: bancada feminina pode chegar a 22 integrantes no Senado
EUA fecham embaixada e consulados no Brasil e suspendem atendimentos por 'segurança'
Alerta diplomático EUA fecham embaixada e consulados no Brasil e suspendem atendimentos por 'segurança'
Dino considera que decisão de liberar posts sobre N. S. Aparecida foi contemplada pelo TSE
STF Dino considera que decisão de liberar posts sobre N. S. Aparecida foi contemplada pelo TSE
Defesa de Bolsonaro pede nova anulação de condenação no STF; Nunes Marques é relator
Tentativa de golpe Defesa de Bolsonaro pede nova anulação de condenação no STF; Nunes Marques é relator
Real Time Big Data: 51% dizem estar decididos, mas parte do eleitorado admite voto útil
Reta final Real Time Big Data: 51% dizem estar decididos, mas parte do eleitorado admite voto útil
Veja quando é possível colocar o imóvel em seu nome sem escritura
REGULARIZAÇÃO IMOBILIÁRIA Veja quando é possível colocar o imóvel em seu nome sem escritura
Flávio anuncia Pablo Marçal para integrar governo caso seja eleito
ARTICULAÇÃO Flávio anuncia Pablo Marçal para integrar governo caso seja eleito
Mais Lidas
Interdições na Castello Branco e em acesso a Alphaville seguem até domingo (4)
TRÂNSITO Interdições na Castello Branco e em acesso a Alphaville seguem até domingo (4)
Porteiro não é vigilante: nova regra exige atenção de condomínios
SEGURANÇA PRIVADA Porteiro não é vigilante: nova regra exige atenção de condomínios
Futura usina de lixo de Barueri terá reunião aberta sobre créditos de carbono
URE Futura usina de lixo de Barueri terá reunião aberta sobre créditos de carbono
Como nasceu o bairro de Alphaville: a história por trás do projeto inovador
Feliz aniversário, Alphaville Como nasceu o bairro de Alphaville: a história por trás do projeto inovador