Segundo a CNI, cerca de 4.187 produtos exportados pelo Brasil poderão ser atingidos
(Imagem: Gilberto Sousa / CNI)
O governo brasileiro e representantes da indústria e do agronegócio iniciaram nesta segunda-feira (6) uma nova ofensiva em Washington para tentar impedir a adoção de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos.
A medida, proposta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), ainda depende de decisão final do presidente Donald Trump, prevista para ocorrer até 15 de julho.
A missão brasileira reúne integrantes do governo federal e de entidades que representam alguns dos principais setores exportadores do país. O objetivo é convencer as autoridades americanas de que a sobretaxa não traria prejuízos apenas ao Brasil, mas também elevaria custos para empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos, afetando cadeias produtivas que dependem de matérias-primas brasileiras.
A comitiva conta com representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de entidades ligadas aos setores de café, açúcar, arroz, etanol de milho, madeira, papel, ferro-gusa, rochas ornamentais, mel, calçados e propriedade intelectual.
Argumentos da indústria
A indústria brasileira pretende destacar que diversos produtos exportados pelo país são utilizados como insumos pela indústria americana e não possuem fornecedores alternativos em quantidade suficiente. Segundo o setor, a imposição da tarifa aumentaria os custos de produção nos Estados Unidos, pressionando a inflação e reduzindo a competitividade de empresas americanas.
Outro argumento é que a relação comercial entre os dois países é marcada pela integração das cadeias produtivas. Em muitos casos, componentes brasileiros são incorporados a produtos fabricados nos Estados Unidos e posteriormente exportados para outros mercados, de modo que a sobretaxa também reduziria a competitividade da indústria americana.
Levantamento da CNI
A preocupação do setor produtivo é reforçada por um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Segundo a entidade, caso o governo dos Estados Unidos confirme as duas propostas em análise — uma sobretaxa de 25% específica para produtos brasileiros e outra de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado — cerca de 4.187 produtos exportados pelo Brasil poderão ser atingidos. Juntos, eles representam aproximadamente US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras para o mercado americano.
Atualmente, esses produtos já estão sujeitos à tarifa adicional temporária de 10%, aplicada com base na Seção 122 da legislação comercial dos Estados Unidos e válida até 24 de julho. Caso as novas medidas sejam aprovadas, o acréscimo total sobre esses itens será de 27,5 pontos percentuais, elevando a taxação para 37,5%.
Ainda de acordo com a CNI, o impacto tende a ser ainda maior porque 62% dos produtos atingidos são bens intermediários: matérias-primas e componentes utilizados pela própria indústria americana em seus processos produtivos. Na avaliação da entidade, isso reforça o argumento levado pela missão brasileira a Washington de que as tarifas não prejudicariam apenas os exportadores nacionais, mas também empresas dos Estados Unidos, que passariam a enfrentar aumento nos custos de produção e perda de competitividade.
Agro aposta em impacto sobre o consumidor americano
O agronegócio também pretende demonstrar que a tarifa afetaria diretamente o mercado americano. Produtos como café, açúcar, madeira, celulose e outros insumos agrícolas brasileiros ocupam posição relevante nas importações dos Estados Unidos e, segundo as entidades do setor, uma eventual sobretaxa seria repassada aos consumidores, pressionando os preços de alimentos e de produtos industrializados.
As entidades afirmam ainda que a substituição desses fornecedores não ocorreria de forma imediata, o que ampliaria os efeitos da medida sobre empresas americanas.
O que motivou a disputa
A proposta de sobretaxa é resultado de uma investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, mecanismo utilizado para apurar práticas consideradas desleais nas relações comerciais.
Entre as justificativas apresentadas pelo governo Trump estão críticas ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos (Pix), questões relacionadas à propriedade intelectual, ao combate ao desmatamento ilegal e ao acesso ao mercado de etanol.
O governo brasileiro contesta os argumentos e sustenta que eles não se justificam do ponto de vista comercial. Um dos principais pontos da defesa é que os próprios Estados Unidos registram superávit na balança comercial com o Brasil, além de destacar que a tarifa média aplicada pelo Brasil sobre produtos americanos é considerada baixa, o que, segundo Brasília, enfraquece a tese de barreiras comerciais relevantes.
Negociação entra na reta final
As negociações entre os dois países ocorrem há vários meses e ganharam intensidade com a aproximação do prazo final estabelecido pelo USTR. Caso a sobretaxa seja confirmada em 15 de julho, diversos produtos brasileiros passarão a enfrentar custos adicionais para entrar no mercado americano.
Paralelamente às tratativas oficiais, o debate também ganhou contornos políticos. Nesta segunda-feira (6), o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência da República pelo PL-RJ, esteve em Washington defendendo o adiamento da decisão por 180 dias, alegando que a proximidade das eleições presidenciais brasileiras pode influenciar as negociações entre os dois países.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a iniciativa e afirmou que membros da família Bolsonaro buscam estimular interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil.
Enquanto a decisão definitiva não é anunciada, governo, indústria e agronegócio mantêm a estratégia de convencer as autoridades americanas de que o tarifaço produziria perdas para ambos os lados da relação comercial, comprometendo investimentos, empregos e o fluxo de negócios entre as duas maiores economias do continente.