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Ressaca pós-carnaval: o que dizem os especialistas

18 fev 2026 - 08h30 Gláucia Arboleya   atualizado às 09h23
Ressaca pós-carnaval: o que dizem os especialistas A ressaca é imprevisível, pode ser intensa mesmo em quem bebeu pouco (Imagem: Createasea/Unsplash)

Dor de cabeça, boca seca, náusea, mal-estar geral e a sensação de “corpo travado” após horas no bloco de carnaval fazem parte de um roteiro conhecido de quem exagera no álcool. A ressaca, porém, é tão comum quanto imprevisível: pode ser intensa mesmo em quem bebeu pouco e mais leve em quem consumiu maiores quantidades.

Segundo especialistas, o quadro é resultado de uma combinação de processos inflamatórios, metabólicos e neurológicos desencadeados pela ingestão de álcool. O etanol é metabolizado no fígado em acetaldeído, uma substância tóxica associada a boa parte do mal-estar. A desidratação — mesmo em níveis leves — explica sintomas como dor de cabeça, boca seca, fadiga e fraqueza, enquanto a irritação da mucosa gástrica contribui para náuseas e desconforto abdominal.

Para Clayton Macedo, endocrinologista e médico do esporte do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, a ressaca costuma surgir quando o nível de álcool no sangue já caiu, mas o organismo ainda lida com seus efeitos inflamatórios, hormonais e metabólicos. O álcool inibe o hormônio antidiurético (ADH), aumentando a perda de líquidos pela urina e favorecendo desidratação, sede, tontura e piora da dor de cabeça.

O especialista destaca ainda que a bebida irrita a mucosa do estômago e do intestino, altera o refluxo e retarda o esvaziamento gástrico, o que intensifica náuseas e desconforto após a ingestão. O consumo de álcool também pode favorecer episódios de hipoglicemia, sobretudo quando ocorre em jejum ou após atividade física, provocando tremores, sudorese e palpitações. A fragmentação do sono e a piora da sua qualidade completam o quadro, contribuindo para cansaço, irritabilidade e maior sensibilidade à dor no dia seguinte.

Por que algumas ressacas são piores do que outras?

As diferenças começam na genética: algumas pessoas produzem ou ativam em menor quantidade as enzimas responsáveis por metabolizar o álcool, o que prolonga seus efeitos no organismo. Indivíduos com alterações hepáticas, uso regular de determinados medicamentos ou processos inflamatórios no fígado também tendem a metabolizar o álcool mais lentamente.

Outro fator está no tipo de bebida consumida. Além do volume ingerido, a presença de congêneres — substâncias formadas durante a fermentação e o envelhecimento, como pequenas quantidades de metanol, taninos, histaminas e sulfatos — influencia a intensidade da ressaca. Esses compostos, presentes em níveis seguros nas bebidas legalizadas, podem intensificar a inflamação, a irritação gastrointestinal e a dor de cabeça.

Em geral, bebidas escuras, como vinho tinto, uísque e conhaque, estão associadas a ressacas mais intensas; a cerveja costuma provocar efeitos intermediários; já destilados mais “puros”, como vodca e gim, tendem a causar menos sintomas. Ainda assim, os especialistas reforçam: a quantidade ingerida e a sensibilidade individual seguem sendo os principais determinantes do “estrago” no dia seguinte.

O que ajuda

Beber água ao acordar melhora sintomas ligados à desidratação, como dor de cabeça e boca seca. Mas não atua na inflamação nem acelera a metabolização do álcool.

Para quadros mais intensos, ingerir água de coco, isotônicos ou soro caseiro podem ser mais eficazes que água pura, porque repõem eletrólitos, minerais perdidos na urina e no suor, como sódio, potássio e magnésio.

O álcool prejudica a absorção de vitaminas do complexo B e aumenta a eliminação de minerais, como magnésio, zinco, sódio e potássio. Por isso, alimentos leves e nutritivos no dia seguinte —frutas ricas em água, vegetais amargos, caldos e proteínas magras —facilitam a recuperação.

Comer antes de beber também é eficaz. Estômago vazio acelera a absorção do álcool; já alimentos com proteínas e gorduras retardam esse processo e ajudam a manter a glicemia mais estável.

Quanto tempo o corpo leva para se recuperar?

Não existe resposta única, diz Patricia. O tempo depende de:

  • quantidade e tipo de bebida;
  • genética e função hepática;
  • hidratação e alimentação antes e depois da ingestão;
  • qualidade do sono —que costuma piorar muito com álcool.

Em geral, o corpo demora mais do que se imagina para se recuperar completamente. O fígado metaboliza, em média, meia a uma dose de álcool por hora, mas os efeitos inflamatórios e a piora da qualidade do sono podem se estender por 12 a 24 horas.

Esse tempo depende da quantidade ingerida, do tipo de bebida e das condições de saúde de cada pessoa. Por isso, mesmo depois que o álcool já foi eliminado, a sensação de cansaço pode durar o dia inteiro.

Quando a ressaca deixa de ser normal e passa a preocupar

É sinal de alerta se houver:

  • vômitos persistentes ou com sangue;
  • confusão mental ou desorientação;
  • dor de cabeça extrema;
  • palpitações;
  • dor abdominal intensa;
  • diarreia com sangue;
  • sudorese intensa ou tremores.

Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento médico.

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