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Apostas ilegais

Operação policial desarticula esquema bilionário de bets ilegais em seis Estados

05 nov 2026 - 12h21 Aliz Lambiazzi   atualizado às 12h34
Operação policial desarticula esquema bilionário de bets ilegais em seis Estados Operação Azzardo foi deflagrada nesta quinta-feira (5) em 5 Estados brasileiros (Imagem: Reprodução Metrópoles)

Uma aposta feita pela internet podia terminar em uma transferência bancária para uma clínica de assistência psicossocial ou uma loja de tarô. Era assim que uma rede suspeita de movimentar centenas de milhões de reais com bets clandestinas tentava esconder o caminho do dinheiro. O esquema entrou na mira da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) nesta quinta-feira (5), com a deflagração da Operação Azzardo, que mobiliza cerca de 200 policiais e busca bloquear até R$ 3,48 bilhões em bens e contas dos investigados.

A ação cumpre 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em cinco Estados: São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte. A investigação identificou movimentações suspeitas de aproximadamente R$ 739 milhões, enquanto operações envolvendo uma instituição financeira paulista e empresas do mesmo grupo chegaram a cerca de R$ 1 bilhão.

Entre os principais alvos está a fintech A55 Sociedade de Crédito Direto, sediada em São Paulo, que teria mantido contas utilizadas por empresas envolvidas no esquema. A instituição, outras duas empresas do grupo e seus dirigentes são investigados.

A operação é conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco/Decor), após uma apuração iniciada há cinco meses a partir de informações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

De uma aposta on-line a uma empresa de fachada

O funcionamento do esquema começou a ser revelado quando técnicos do Ministério da Fazenda identificaram plataformas de apostas que operavam sem autorização federal.

Durante simulações de pagamentos, descobriram que os valores enviados pelos apostadores via Pix não eram direcionados diretamente às bets. Em vez disso, chegavam a contas de empresas que declaravam exercer atividades completamente diferentes.

Em Sobradinho, no Distrito Federal, duas dessas empresas estavam registradas como uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de artigos de tarô.

Ao investigar os endereços, os policiais encontraram imóveis vazios e estabelecimentos que não correspondiam às atividades informadas nos registros comerciais.

As coincidências se repetiam: diversas empresas haviam sido abertas entre fevereiro e julho deste ano, apresentavam capitais sociais idênticos e estavam concentradas em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Em um único endereço de Ceilândia, dez empresas utilizavam o mesmo número de telefone.

Segundo a polícia, essas pessoas jurídicas funcionavam como intermediárias para receber os pagamentos das apostas, concentrar o dinheiro e redistribuí-lo entre diferentes contas, empresas e instituições financeiras.

Parte dos recursos também teria sido convertida em criptomoedas, numa tentativa de dificultar o rastreamento das transações e a identificação dos beneficiários.

Fintech paulista movimentou cerca de R$ 1 bilhão

A investigação chegou à A55 Sociedade de Crédito Direto, empresa do setor financeiro sediada em São Paulo e autorizada pelo Banco Central a atuar como Sociedade de Crédito Direto.

Segundo a PCDF, as simulações realizadas pelo Ministério da Fazenda mostraram que pagamentos destinados às bets investigadas eram encaminhados para contas de empresas de fachada mantidas na instituição.

Os investigadores também identificaram movimentações entre essas empresas e outras pessoas jurídicas ligadas ao esquema, além de trocas recorrentes de procuradores responsáveis pelas contas.

A análise financeira da A55 e de empresas do mesmo grupo apontou movimentações de aproximadamente R$ 1 bilhão, incluindo repasses a uma empresa investigada e pagamentos relacionados a plataformas de apostas sem autorização.

Em 30 de julho deste ano, o Banco Central já havia divulgado a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da fintech. O comunicado, entretanto, não equivalia ao cancelamento definitivo da licença.

A instituição financeira, duas empresas relacionadas e seus dirigentes estão entre os alvos das medidas judiciais. No caso da fintech, a decisão de bloqueio atinge apenas os recursos próprios da empresa, preservando as contas de clientes que não são investigados.

Justiça mira bilhões e suspende 100 empresas

A dimensão financeira do esquema levou o Juízo das Garantias de Sobradinho a determinar o bloqueio de contas e ativos de 64 pessoas físicas e 120 empresas, até o limite global de R$ 3,483 bilhões.

O valor representa o teto autorizado para o bloqueio judicial e não significa que essa quantia já tenha sido encontrada ou apreendida.

A Justiça também determinou a suspensão das inscrições no CNPJ e dos registros comerciais de 100 empresas e empresários individuais, além de proibir a abertura de novas contas bancárias pelos investigados durante 90 dias.

Foram autorizados, ainda, o acesso a informações protegidas por sigilo bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas e a possibilidade de sequestro judicial de veículos localizados durante as buscas.

Na capital paulista, as diligências ocorrem em endereços da região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em Pinheiros, e no polo empresarial da Vila Olímpia, entre outros locais.

Os policiais procuram documentos, computadores, celulares e registros de operações financeiras para identificar os responsáveis pelas plataformas e esclarecer quem efetivamente recebeu os recursos.

Autorizações estaduais também são investigadas

A apuração alcançou ainda três empresas que possuíam autorizações para explorar modalidades de loteria nos Estados da Paraíba e do Rio de Janeiro.

Segundo a polícia, essas permissões tinham limites específicos de território, marcas e plataformas. Nenhum dos sites investigados estava incluído nas autorizações apresentadas pelas empresas.

A suspeita é de que vínculos com operações lotéricas estaduais fossem utilizados para dar aparência de regularidade às atividades das bets clandestinas.

Os investigadores também apuram relações societárias e transações financeiras entre essas companhias e outras empresas suspeitas de integrar o esquema.

Investigados podem responder por cinco crimes

Os envolvidos poderão responder por exploração de loteria não autorizada, estelionato mediante fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e organização criminosa. Dependendo dos crimes comprovados e das circunstâncias de cada caso, as penas somadas podem chegar a 33 anos de prisão.

Não foram expedidos mandados de prisão nesta fase da operação. As identidades das pessoas físicas investigadas e os nomes das plataformas clandestinas não haviam sido divulgados até a última atualização das informações.

A Operação Azzardo (nome inspirado na expressão italiana gioco d'azzardo, que significa jogo de azar) continua em andamento. O material apreendido será analisado para esclarecer a extensão das movimentações, identificar os responsáveis e verificar possíveis prejuízos aos apostadores.

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