Autora Luciane Medina com sua obra Kia Ora Beija Flor_Divulgação
O que começou como uma mudança de país por iniciativa do então marido se transformou em uma jornada de descobertas, desafios e recomeços. Há 22 anos na Nova Zelândia, a brasileira Luciane Medina decidiu revisitar sua trajetória e transformá-la na autobiografia Kia Ora Beija-Flor, obra que aborda desde as lembranças da infância até experiências de imigração, relacionamentos, maternidade, perdas e superação. Atualmente no Brasil para divulgar o livro, a escritora também passa uma temporada em Alphaville, onde há muitos anos mora sua irmã, Lucimara Medina.
Natural de São Bernardo do Campo e criada na Vila Liviero, na capital paulista, Luciane deixou o Brasil em 2004, acompanhada do então marido e do filho Gustavo, que tinha quatro anos. A decisão de morar no exterior partiu do companheiro, engenheiro mecânico que falava inglês fluentemente e desejava trabalhar fora do país.
O destino inicialmente pretendido era a Austrália, mas o visto solicitado para a família foi negado. Restaram duas possibilidades: Inglaterra e Nova Zelândia. A escolha acabou recaindo sobre o país da Oceania, entre outros motivos, porque o marido era surfista e se interessava pelas ondas neozelandesas.
Na época, Luciane não imaginava que aquela mudança definiria grande parte de sua história.
A adaptação foi difícil. Além da distância da família, precisou enfrentar as barreiras do idioma e as diferenças culturais. Enquanto Gustavo frequentava a escola infantil, ela começou a estudar inglês e a descobrir os costumes do novo país.
"A adaptação foi um dos maiores desafios da minha vida. Tudo era diferente: o idioma, o clima, a alimentação, a cultura e até a maneira como as pessoas se relacionavam. Sentia muita saudade da família e precisava aprender a viver longe de tudo aquilo que conhecia", relembra.
Aos poucos, o estranhamento deu lugar à familiaridade. Luciane passou a admirar a receptividade dos neozelandeses, a cultura do povo Māori e a convivência com pessoas de diferentes nacionalidades. Sem deixar de se sentir brasileira, começou a construir novos vínculos e uma identidade também ligada à Nova Zelândia.
Capítulo Alphaville
Em 2017, Luciane enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida. Após o divórcio, retornou ao Brasil e passou nove meses em Alphaville, inicialmente para ajudar a irmã.
A temporada representou uma tentativa de reconstruir a vida no país de origem, mas também foi marcada pela distância dos filhos, Gustavo e Victor, que permaneceram na Nova Zelândia.
"O maior desafio daquele período era a saudade dos meus filhos, que continuaram vivendo na Nova Zelândia. Mesmo estando no Brasil, meus pensamentos estavam constantemente do outro lado do mundo", conta.
Foi nessa fase que a escritora percebeu como a experiência de viver no exterior havia transformado sua relação com o próprio Brasil. Depois de tantos anos, retornar definitivamente não era tão simples quanto imaginava. Sua vida, seus vínculos e, principalmente, seus filhos estavam do outro lado do mundo.
A decisão de voltar à Nova Zelândia exigiu outra grande mudança. Divorciada, Luciane precisou recomeçar praticamente do zero e sozinha. A possibilidade de estar perto de Gustavo e Victor, entretanto, foi sua maior motivação para enfrentar as dificuldades.
A experiência se tornou um dos episódios significativos da autobiografia, que não procura apresentar uma trajetória perfeita, mas retratar as escolhas, vulnerabilidades e aprendizados acumulados ao longo da vida.
Da experiência pessoal às páginas de um livro
A ideia de escrever uma autobiografia surgiu aos poucos. Apaixonada por literatura e cinema, Luciane costumava compartilhar episódios de sua vida com pessoas próximas e frequentemente ouvia que deveria transformá-los em livro. O incentivo permaneceu até que decidiu colocar suas memórias no papel.
"Escrever foi um processo muito libertador. Mais do que contar minha história, foi uma oportunidade de revisitar o passado, compreender algumas experiências e dar voz a momentos que fizeram parte da mulher que me tornei", explica.
Publicado originalmente em setembro de 2025 pela Editora Dialética, Kia Ora Beija-Flor percorre diferentes fases da vida da autora, da infância e adolescência à maturidade, incluindo lembranças dos anos 1990. A narrativa aborda temas delicados, como abuso, relacionamentos, casamentos e depressão, além das dificuldades e descobertas de uma brasileira que precisou se adaptar a outra cultura.
Mais do que registrar acontecimentos, Luciane buscou compreender como cada experiência contribuiu para a pessoa que se tornou. "Não escrevi para apresentar uma vida perfeita, mas para mostrar uma trajetória real, com dificuldades, erros, aprendizados e muita força para continuar", afirma.
O significado de Kia Ora Beija-Flor
O título da autobiografia traduz simbolicamente as duas culturas que fazem parte da identidade da escritora.
Kia ora é uma expressão da língua Māori, utilizada como cumprimento na Nova Zelândia e associada também às ideias de vida e bem-estar. Já o beija-flor representa as raízes brasileiras de Luciane.
A imagem se completa com a pohutukawa, árvore conhecida por suas flores vermelhas e considerada um dos símbolos da Nova Zelândia.
"É como se o beija-flor brasileiro encontrasse e beijasse a flor da Nova Zelândia", explica a autora, que encontrou nessa imagem uma maneira de representar sua trajetória e o encontro entre os dois países.
Lançado inicialmente em português, o livro ganhou uma versão em inglês em outubro de 2026. A decisão surgiu da convivência com pessoas de diferentes nacionalidades e do desejo de compartilhar suas experiências com leitores que não dominam a língua portuguesa.
Segundo Luciane, a tradução preservou a essência da narrativa original, incluindo as referências culturais brasileiras e as experiências pessoais que dão identidade à obra.
A vida na Nova Zelândia e os planos para o livro
Atualmente, Luciane vive uma fase dedicada à divulgação da autobiografia. Na Nova Zelândia, divide a rotina com o marido britânico e a cachorrinha Mila, a quem chama carinhosamente de filhota. Nos momentos livres, gosta de passear de bicicleta, assistir a filmes e séries e acompanhar as produções indicadas ao Oscar. A leitura também faz parte de seus hábitos diários.
Mesmo depois de mais de duas décadas no exterior, alguns aspectos da vida brasileira continuam fazendo falta, especialmente os encontros familiares, a gastronomia e a espontaneidade das pessoas.
A autora também reconhece que a realidade de quem pretende imigrar mudou desde sua chegada, em 2004. Na avaliação dela, o mercado de trabalho e as exigências migratórias atuais tornam ainda mais importante o planejamento de quem deseja construir uma vida fora do Brasil.
"Não existe recomeço sem desafios, mas também não existe uma única maneira de construir uma nova história", observa.
No Brasil desde 18 de outubro, Luciane permanecerá no país até 24 de dezembro. Durante a temporada, aproveita para reencontrar familiares, amigos e divulgar a autobiografia, que também apresenta aos leitores de Alphaville e região.
Onde encontrar o livro
Kia Ora Beija-Flor, de Luciane Medina, está disponível em português e inglês, em diferentes formatos e plataformas.
A edição impressa pode ser adquirida na loja da Editora Dialética e na Amazon. A versão digital está disponível na Disal e no Google Play Livros. A obra também possui versões em audiolivro distribuídas por plataformas como Google Play, Apple Books, WOOK Portugal e ElevenReader.
Durante sua passagem pelo Brasil, a escritora também disponibiliza exemplares para aquisição diretamente com ela. O contato pode ser feito pelo Instagram da autora.