Embora seja confundido com papel comum, o liner possui uma camada de silicone que dificulta sua reciclagem
(Imagem: Imagem gerada por IA)
O tradicional álbum de figurinhas da Copa do Mundo, que mobiliza milhões de colecionadores a cada edição do torneio, voltou a ocupar bancas, livrarias e plataformas digitais em todo o país. Mas, por trás da corrida para completar a coleção, surge uma questão ambiental pouco conhecida: o descarte do chamado liner, o papel siliconado que protege a parte adesiva das figurinhas antes da colagem.
Embora seja frequentemente confundido com papel comum, o material possui uma camada de silicone que dificulta significativamente sua reciclagem. Em razão dessa composição, o resíduo pode permanecer no meio ambiente por décadas quando descartado de forma inadequada. Estimativas do setor apontam que sua decomposição pode levar até 100 anos em determinadas condições.
O desafio está justamente na composição do liner. Apesar de ser tecnicamente reciclável, sua reciclagem exige processos industriais específicos capazes de separar o silicone da celulose. Essa complexidade faz com que cooperativas convencionais e centrais de triagem encontrem dificuldades para reaproveitar o material, que muitas vezes acaba destinado a aterros sanitários.
A situação evidencia uma diferença importante entre os conceitos de reciclável e reciclabilidade. Enquanto um produto reciclável possui características que permitem sua transformação em novos materiais, a reciclabilidade depende da existência de infraestrutura, tecnologia e viabilidade econômica para que esse reaproveitamento ocorra efetivamente. No caso do liner das figurinhas, a reciclagem é possível, mas ainda restrita a um número reduzido de empresas especializadas.
Os números ajudam a dimensionar o volume potencial de resíduos. Levantamentos recentes apontam que uma ação promocional envolvendo a comercialização de figurinhas movimentou cerca de 6,7 milhões de pacotes em poucos dias. Considerando sete adesivos por embalagem, foram quase 47 milhões de figurinhas colocadas em circulação, gerando uma estimativa de aproximadamente 11,7 toneladas de papel liner apenas nesse período.
A comparação com iniciativas anteriores mostra o tamanho do desafio. Durante a Copa do Mundo de 2022, uma campanha de coleta promovida pela Dow Brasil, fornecedora da camada siliconada utilizada em materiais da Panini (vendedora oficial do álbum da Copa), encaminhou para reciclagem cerca de 168 mil unidades de liner, o equivalente a aproximadamente 42 quilos do material. Embora a ação tenha contribuído para ampliar a conscientização sobre o tema, o volume representa apenas uma pequena parcela do total gerado pelos consumidores.
Quando destinados a aterros sanitários, os liners permanecem por longos períodos no ambiente devido à presença do silicone, que dificulta sua degradação natural. O descarte inadequado também reduz as possibilidades de reaproveitamento das fibras celulósicas presentes no material.
Descarte recomendado
Apesar das limitações existentes na cadeia de reciclagem, a orientação é que os liners não sejam descartados junto aos resíduos orgânicos. Sempre que possível, o material deve ser encaminhado à coleta seletiva, permitindo que centrais de triagem e empresas especializadas avaliem a possibilidade de reciclagem ou destinação ambientalmente adequada.
O tema também reforça a importância da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que estabelece o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, envolvendo fabricantes, distribuidores, comerciantes, consumidores e serviços públicos de limpeza urbana na busca por soluções para a destinação correta dos resíduos.
Enquanto a busca pelas figurinhas raras e a troca de cromos continuam movimentando crianças e adultos em todo o país, a discussão sobre os impactos ambientais da coleção ganha espaço. O desafio passa a ser conciliar uma tradição que atravessa gerações com práticas que reduzam a quantidade de resíduos enviados aos aterros sanitários.
Alternativa especializada
Embora a reciclagem do liner ainda seja limitada no Brasil, algumas empresas desenvolveram tecnologias específicas para reaproveitar esse material.
Uma das empresas que atua justamente na reciclagem desse tipo de material é a Polpel, sediada em Guarulhos (SP). A companhia afirma ter desenvolvido o primeiro processo de reciclagem de paper liner da América do Sul e se apresenta como a maior operadora de logística reversa de resíduos da indústria de rótulos autoadesivos da América Latina.
Segundo a empresa, o desafio está no fato de que a camada de silicone aplicada ao papel impede sua reciclagem direta nas máquinas convencionais da indústria papeleira. Por meio de tecnologia própria, a Polpel realiza a separação e recuperação das fibras celulósicas, que retornam à cadeia produtiva para a fabricação de novos papéis.
Iniciativas desse tipo buscam ampliar as alternativas de reaproveitamento de um resíduo que, apesar de pouco conhecido pelos consumidores, é produzido em larga escala e apresenta desafios específicos para a reciclagem convencional.
A reportagem entrou em contato com a empresa para saber mais sobre a coleta desse tipo de material, mas não foi respondida até o fechamento desta matéria.