A série histórica permite dimensionar uma transformação que vai muito além do desmatamento registrado em um único ano
(Imagem: Felipe Barros/Arquivos FA)
O mapa do Brasil mudou de forma expressiva nas últimas quatro décadas. Entre 1985 e 2025, o país perdeu 14% de sua cobertura de vegetação nativa, enquanto a agropecuária praticamente dobrou sua participação no território nacional. Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada nesta quarta-feira (12).
Em 1985, florestas, savanas, campos e outras formações naturais cobriam 79% do território brasileiro. Quarenta anos depois, essa proporção caiu para 65%. No caminho inverso, as áreas destinadas à agropecuária passaram de 18% para 32%.
O levantamento acompanha anualmente as transformações na cobertura e no uso da terra no país e, em sua nova edição, trabalha com 33 classes de mapeamento. A série histórica permite dimensionar uma transformação que vai muito além do desmatamento registrado em um único ano.
Ao longo dos 41 anos analisados, cerca de um terço do território brasileiro passou por pelo menos uma mudança de cobertura ou de uso da terra.
Quando são comparados diretamente os mapas de 1985 e 2025, 241 milhões de hectares aparecem com uma classificação diferente. Desse total, 56% correspondem à conversão de vegetação nativa para usos agropecuários.
Amazônia e Cerrado concentram perdas
Em números absolutos, Amazônia e Cerrado foram os biomas que mais perderam vegetação nativa no período. A Amazônia teve redução de 53,9 milhões de hectares, enquanto o Cerrado perdeu 51,7 milhões.
Quando se considera a proporção dentro de cada bioma, entretanto, o Cerrado e o Pampa aparecem com as maiores perdas: 34% e 32%, respectivamente.
A Mata Atlântica, por sua vez, permanece como o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa. Em 2025, apenas 32% de seu território mantinha esse tipo de cobertura.
As mudanças atingiram praticamente todo o país. Entre 1985 e 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa. O Rio de Janeiro foi a única exceção identificada pelo MapBiomas, com crescimento de 1% no período.
Rondônia está entre os exemplos mais expressivos da transformação. Em 1985, 92% do território estadual era coberto por vegetação nativa. Em 2025, essa parcela havia recuado para 59%.
Soja avança quase dez vezes
Enquanto a vegetação nativa perdeu espaço, a agricultura avançou de 18,6 milhões de hectares, em 1985, para 66,5 milhões em 2025.
A soja foi uma das principais responsáveis por essa expansão. A cultura ocupava 4,5 milhões de hectares no início da série histórica e chegou a 44,2 milhões de hectares em 2025 — uma área quase dez vezes maior em quatro décadas.
As pastagens também têm peso significativo nessa transformação. Em 2025, ocupavam 165,6 milhões de hectares e respondiam por mais da metade de toda a área agropecuária brasileira.
Os números ajudam a dimensionar a mudança no perfil de ocupação do território: em 1985, menos de um quinto do Brasil era destinado à agropecuária; em 2025, essa atividade já ocupava praticamente um terço do país.
Mudanças no território e extremos de chuva
A Coleção 11 também avança sobre outra questão: a relação entre cobertura da terra e extremos climáticos. O MapBiomas cruzou os dados de uso do solo com informações sobre chuvas durante três episódios intensos de El Niño: 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024.
Na Amazônia, o episódio mais recente apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas analisados. Nas áreas agropecuárias, entre setembro e novembro, foram registrados 178 milímetros de chuva abaixo da média climatológica.
O Cerrado e a porção norte da Mata Atlântica também apresentaram agravamento da redução das chuvas na comparação entre os eventos analisados.
No Sul do país, o comportamento foi inverso. Os episódios de El Niño estiveram associados ao excesso de precipitação, especialmente no Pampa e na parte sul da Mata Atlântica.
Segundo o MapBiomas, a análise permite observar como regiões submetidas a diferentes formas de cobertura e uso da terra respondem de maneiras distintas aos extremos de precipitação.
A nova fotografia do território brasileiro mostra, assim, uma transformação acumulada ao longo de quatro décadas: a vegetação nativa ainda ocupa a maior parte do país, mas perdeu espaço de forma significativa enquanto as atividades agropecuárias avançaram sobre milhões de hectares.