Operação conjunta cumpre mandados em diversos Estados
(Imagem: Divulgação Receita Federal)
Barueri é uma das cidades com alvos da Operação Crédito Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24) como terceira fase da Carbono Oculto. Ao todo, quatro alvos estão localizados no município, segundo informações divulgadas pela Receita Federal.
A operação investiga uma estrutura financeira suspeita de ter sido usada para ocultar patrimônio e a origem de recursos relacionados à aquisição de uma distribuidora de combustíveis. Uma das empresas financeiras investigadas nas operações movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025, de acordo com a Receita.
A ação cumpre mandados de busca e apreensão em 29 endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 24 pessoas jurídicas, segundo o Governo de São Paulo. Já a Receita Federal informa que as buscas estão relacionadas a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas, distribuídas por sete Estados.
De acordo com o detalhamento da Receita, São Paulo concentra 26 alvos: 18 na capital, quatro em Barueri (um pessoa física e três pessoas jurídicas) e um em cada uma das cidades de Cotia, Guarulhos, Paulínia e São José dos Campos. Os demais estão no Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
A operação reúne Receita Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado, Polícia Militar e Polícia Civil. A operação também conta com o apoio dos Gaecos dos outros Estados onde são realizadas diligências.
Para o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, a atuação conjunta permite avançar sobre diferentes frentes das organizações investigadas. “O crime organizado se estrutura de forma cada vez mais complexa e utiliza diferentes mecanismos para movimentar recursos, ocultar patrimônio e ampliar sua atuação. Por isso, a resposta do Estado também precisa ser integrada. A união entre as forças de segurança e os demais órgãos permite cruzar informações, aprofundar as investigações e atingir não apenas os responsáveis pelos crimes, mas também as estruturas que dão sustentação às organizações criminosas”, afirma.
Estrutura financeira
A investigação aponta que diferentes empresas e operações financeiras teriam sido utilizadas para dificultar a identificação dos verdadeiros responsáveis pelos recursos e pelo patrimônio. Entre as estruturas analisadas estão fintechs, fundos de investimento, holdings, empresas patrimoniais e empresas de fachada.
Segundo a Receita Federal, uma primeira etapa do esquema teria sido montada para ocultar os verdadeiros controladores de uma usina sucroalcooleira no interior paulista. Embora a titularidade formal estivesse distribuída entre fundos e empresas aparentemente independentes, os investigadores suspeitam que a estrutura permitia preservar o controle econômico sem revelar os beneficiários finais.
Um dos negócios investigados envolve cerca de R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
A análise financeira apontou que parte relevante dos recursos utilizados na operação teria vindo de fundos controlados pelo próprio grupo investigado. Para a Receita, o mecanismo teria criado uma circulação de dinheiro com aparência de uma operação regular, dificultando a identificação dos beneficiários.
Compra de distribuidora
Em uma segunda etapa, a estrutura teria sido utilizada para viabilizar a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
Segundo a investigação, cerca de R$ 100 milhões teriam sido enviados à empresa sucroalcooleira para financiar o negócio. Antes de chegar ao destino, o dinheiro teria circulado por diferentes empresas e contas usadas como passagem. Posteriormente, os recursos teriam sido direcionados a um fundo criado para participar da aquisição da distribuidora.
A apuração também identificou o uso de banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e companhias consideradas de fachada pelos investigadores. Fintechs teriam sido usadas para permitir a circulação e a fragmentação dos recursos, enquanto fundos e empresas teriam ajudado a distanciar a origem do dinheiro de seus beneficiários finais.
Fundos imobiliários também são investigados por supostamente concentrar imóveis ligados aos envolvidos, mantendo os bens fora da titularidade direta dos investigados e dificultando o rastreamento do patrimônio.
A empresa financeira apontada como parte dessa estrutura movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Segundo a Receita Federal, o volume, analisado em conjunto com outras evidências reunidas na investigação, reforçou os indícios de ocultação patrimonial, dissimulação da origem dos recursos e lavagem de dinheiro.
Delator do Master e ex-diretor do Genial estão entre os alvos
Entre os alvos desta fase estão o empresário Antonio Carlos Freixo Jr., dono da Entre Investimentos e delator nas investigações relacionadas ao Banco Master, e Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial. Os irmãos de Humberto, André e Bruno Tupinambá, também são alvos da operação.
Segundo as investigações, Humberto e os irmãos teriam participado da estrutura financeira utilizada na aquisição da distribuidora de combustíveis. Em nota, o Banco Genial informou que Humberto deixou de integrar a diretoria e o quadro societário em maio deste ano e afirmou que forneceu ao Gaeco informações sobre as operações investigadas. A instituição declarou ainda ter realizado as comunicações cabíveis ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Freixo, por sua vez, é investigado por operações envolvendo a Entre Investimentos. Segundo a apuração, a empresa teria aportado R$ 20 milhões em uma conta da usina investigada, valor que teria sido transferido no mesmo dia para um fundo utilizado na estrutura financeira analisada pelo Ministério Público. A defesa do empresário informou que não se manifestaria.
Freixo também aparece na investigação por movimentações consideradas suspeitas pelo Ministério Público. Entre elas, o fato de ter sido registrado como ganhador de 570 prêmios de loterias e casas de apostas entre janeiro de 2020 e junho de 2025, que somaram R$ 176 milhões. Os investigadores apuram se essas premiações teriam sido utilizadas para dar aparência lícita a recursos.