Alerta vem da Sociedade Brasileira de Pediatria
(Imagem: Haberdoedas / Pexels)
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta para os riscos do uso inadequado das chamadas canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes. Segundo documento divulgado pela entidade, a utilização sem indicação e acompanhamento médico pode prejudicar o crescimento e o desenvolvimento, provocar perda de massa muscular e servir de gatilho para transtornos alimentares.
O alerta foi publicado pelo Departamento Científico de Endocrinologia da SBP diante da popularização desses medicamentos e de relatos nas redes sociais de pais administrando as substâncias aos filhos. A entidade ressalta, porém, que o problema não está no medicamento em si: algumas dessas substâncias têm indicações aprovadas para crianças ou adolescentes com obesidade ou diabetes tipo 2.
“A evidência científica disponível demonstra eficácia e segurança desses medicamentos em adolescentes quando utilizados dentro dos critérios estudados e associados às intervenções sobre estilo de vida. O problema que temos observado atualmente, principalmente nas redes sociais, não está no medicamento em si, mas na banalização”, afirma o documento.
No Brasil, até agosto, três medicamentos dessa classe tinham indicação pediátrica aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): liraglutida, semaglutida e tirzepatida, cada uma para situações e faixas etárias específicas.
Para o tratamento da obesidade, a semaglutida (Wegovy) pode ser indicada a adolescentes a partir dos 12 anos, com obesidade e peso superior a 60 kg. A liraglutida (Saxenda) também tem indicação para obesidade a partir dos 12 anos, dentro dos critérios estabelecidos para o medicamento.
Já a tirzepatida (Mounjaro) teve sua indicação ampliada pela Anvisa em abril deste ano para tratamento do diabetes tipo 2 em pacientes a partir dos 10 anos. A indicação pediátrica aprovada pela agência é para diabetes tipo 2, e não para tratamento da obesidade.
Riscos durante o crescimento
A preocupação da SBP é maior porque crianças e adolescentes ainda estão em desenvolvimento. A redução acentuada da ingestão de alimentos pode comprometer o consumo adequado de proteínas, vitaminas e minerais necessários durante essa fase.
Entre os problemas associados ao uso inadequado, a entidade cita déficit de crescimento e desenvolvimento, desidratação, alterações nos níveis de eletrólitos do organismo e perda de massa muscular. Náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e prisão de ventre estão entre os efeitos adversos mais comuns.
Há ainda eventos potencialmente graves, como pancreatite, hipoglicemia e cálculos na vesícula. Em fevereiro deste ano, a própria Anvisa reforçou o alerta para casos de pancreatite aguda associados ao uso inadequado desses medicamentos. A agência ressaltou, entretanto, que não houve mudança na avaliação de segurança dos produtos quando utilizados conforme as indicações aprovadas.
Outro ponto destacado pelos pediatras é a saúde mental. Segundo a SBP, o uso com finalidade estética pode funcionar como gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de ansiedade e quadros depressivos relacionados à imagem corporal.
“Esses medicamentos não podem ser utilizados simplesmente para modificar aparência corporal, nem para atingir padrões estéticos do ‘corpo ideal’ impostos pela sociedade”, alerta a entidade.
A entidade recomenda que o médico investigue as razões pelas quais o adolescente deseja emagrecer, as expectativas em relação ao tratamento e quem sugeriu o medicamento. A prescrição também deve considerar a gravidade da obesidade ou do diabetes, doenças associadas, tratamentos anteriores e a possibilidade de acompanhamento contínuo.
Como as canetas agem no organismo
As chamadas canetas emagrecedoras atuam em mecanismos relacionados à fome, à digestão e ao controle da glicose. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, esses medicamentos aumentam a sensação de saciedade e fazem com que o estômago esvazie mais lentamente, o que contribui para reduzir a quantidade de alimentos ingerida. Eles também exercem efeitos metabólicos, como estimular a liberação de insulina após as refeições.
A preocupação da SBP é maior porque crianças e adolescentes ainda estão em fase de crescimento e desenvolvimento, período em que o organismo necessita de aporte adequado de energia, proteínas, vitaminas e minerais. Como esses medicamentos aumentam a saciedade e reduzem a ingestão de alimentos, o tratamento exige acompanhamento para evitar que a alimentação se torne insuficiente para as necessidades dessa faixa etária.
Entre os problemas associados ao uso inadequado, a entidade cita déficit de crescimento e desenvolvimento, desidratação, alterações nos níveis de eletrólitos do organismo e perda de massa muscular. Náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e prisão de ventre estão entre os efeitos adversos mais comuns.
Pressão estética
A SBP afirma que esses medicamentos não devem ser usados por adolescentes com peso adequado apenas para mudar a aparência, buscar o chamado “corpo ideal”, emagrecer rapidamente antes de festas, viagens ou competições ou compensar alimentação inadequada e sedentarismo.
A entidade recomenda, inclusive, evitar a expressão “canetas emagrecedoras” e utilizar “medicamentos para tratar a obesidade”, para não banalizar o tratamento de uma doença crônica.
“Antes de decidir pela prescrição, o médico precisa avaliar a resposta às intervenções prévias farmacológicas e não farmacológicas, a gravidade da doença, a presença de comorbidades, os riscos potenciais, a capacidade de acompanhamento e as expectativas do adolescente e de sua família”, aponta o documento.
Produtos irregulares
O alerta também chama atenção para produtos clandestinos, manipulados ou importados sem registro sanitário. A SBP contraindica seu uso por não haver garantia sobre procedência, composição e segurança.
A preocupação ganhou força neste ano. A Anvisa determinou a apreensão e proibiu a comercialização, importação e uso de diferentes canetas sem registro, entre elas produtos vendidos como Lipoless, Retatrutide, Tirzec, Lipoland, Gluconex, Tirzedral e Slimex.
Desde junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 estão sujeitos a controle mais rigoroso no país. A compra exige receita em duas vias, com retenção de uma delas pela farmácia, e a prescrição tem validade de até 90 dias.