Levantamento aponta para o surgimento de uma nova geração de profissionais
(Imagem: Magnific)
A expansão da Inteligência Artificial (IA) está abrindo espaço para novas funções no mercado de trabalho. Nos últimos dois anos, 1,3 milhão de novos empregos ligados à tecnologia surgiram globalmente, segundo o Labor Market Report: Building a Future of Work That Works (Relatório do Mercado de Trabalho: Construindo um Futuro do Trabalho que Funcione), divulgado pelo LinkedIn em janeiro deste ano.
O levantamento aponta para o surgimento de uma nova geração de profissionais, chamada pela plataforma de “new-collar”, ou “novos colarinhos”, que reúne competências técnicas e habilidades humanas. Entre as funções impulsionadas pela IA estão engenheiro de IA (AI Engineer), anotador de dados (Data Annotator) e engenheiro de implantação (Forward-Deployed Engineer).
Outro cargo que vem ganhando espaço é o de Head of AI, profissional responsável por liderar a estratégia de inteligência artificial dentro das empresas. A função envolve, entre outras atribuições, direcionar a adoção da tecnologia e sua integração aos negócios.
Nos Estados Unidos, engenheiro de IA aparece como a principal ocupação pelo segundo ano consecutivo no levantamento do LinkedIn. Já a presença de cargos de liderança em inteligência artificial avançou em diferentes mercados: o número de empresas com profissionais na posição de Head of AI cresceu 32% na Austrália, 31% no Canadá, 30% na Índia, Alemanha e Reino Unido e 28% nos Estados Unidos, no período de um ano.
A demanda por conhecimentos relacionados à tecnologia, porém, não está restrita aos especialistas. Nos Estados Unidos, as vagas que exigem algum nível de conhecimento em IA cresceram 70% em um ano, indicando que a familiaridade com essas ferramentas também começa a aparecer como requisito em funções não essencialmente técnicas.
Profissões existentes também mudam
O avanço das novas funções ocorre em um mercado de trabalho ainda marcado por contratações mais fracas. Segundo o relatório do LinkedIn, nas economias avançadas, o volume de contratações permanece entre 20% e 35% abaixo dos níveis observados antes da pandemia. A análise aponta fatores macroeconômicos, como incertezas econômicas e mudanças na política monetária, como os principais responsáveis pela retração, em vez da adoção da IA.
Ao mesmo tempo, as chamadas habilidades humanas continuam relevantes. Dados divulgados pelo LinkedIn mostram que 75% das empresas consultadas globalmente consideram as competências interpessoais ainda mais importantes na era da IA. Adaptabilidade, resolução de problemas e pensamento crítico estão entre as capacidades destacadas pela plataforma.
A combinação entre conhecimentos de IA e essas competências humanas é apontada pelo LinkedIn como uma das características do novo cenário profissional, em que a tecnologia passa a fazer parte tanto de ocupações recém-criadas quanto de atividades já existentes.
IA assume tarefas, mas decisões continuam humanas
Essa transformação também é analisada no 2026 Work Trend Index Annual Report (Relatório Anual do Índice de Tendências do Trabalho 2026), relatório anual da Microsoft divulgado em 5 de maio. Intitulada Agents, human agency, and the opportunity for every organization (Agentes, protagonismo humano e a oportunidade para todas as organizações), a edição deste ano analisou trilhões de sinais anonimizados de produtividade do Microsoft 365 e reuniu uma pesquisa com 20 mil profissionais que utilizam IA no trabalho em dez países, incluindo o Brasil.
O levantamento foi realizado pela empresa independente Edelman Data x Intelligence entre 18 de fevereiro e 7 de abril de 2026. Foram entrevistados 2 mil profissionais em cada um dos dez mercados analisados: Austrália, Brasil, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos.
Além da pesquisa, a Microsoft analisou mais de 100 mil conversas no Microsoft 365 Copilot. Desse total, 49% estavam relacionadas a atividades cognitivas, como análise de informações, resolução de problemas, avaliação e pensamento criativo. Outros 19% envolviam interação com pessoas, 17% produção de trabalhos e 15% busca de informações.
Entre os profissionais entrevistados, 66% disseram que a IA permitiu dedicar mais tempo a trabalhos de maior valor, enquanto 58% afirmaram estar produzindo trabalhos que não conseguiriam realizar um ano antes.
Os resultados também mostram que a adoção da tecnologia, isoladamente, não explica os benefícios percebidos pelos trabalhadores. Na análise estatística da Microsoft, fatores organizacionais, como cultura, apoio dos gestores e práticas de gestão de talentos, responderam por 67% da importância associada ao impacto relatado da IA, ante 32% dos fatores individuais.
A Microsoft ressalta que esses números mostram uma associação estatística e não uma relação de causa e efeito. Ainda assim, o resultado indica que o ambiente oferecido pelas empresas pode ter papel relevante na forma como os profissionais incorporam a tecnologia ao cotidiano.
À medida que sistemas de IA e agentes assumem mais tarefas de execução, o relatório aponta que o papel humano tende a se concentrar cada vez mais em definir objetivos, avaliar resultados, exercer julgamento e assumir a responsabilidade pelas decisões. Para as empresas, o desafio passa não apenas pela adoção de ferramentas, mas também pela reorganização da forma como o trabalho é realizado.