São Paulo | 25ºC
Qua, 01 de Julho
Meio ambiente

Estudo inédito mostra que Rio Tietê não tem mais nenhum trecho livre de contaminação

01 jul 2026 - 12h22 Aliz Lambiazzi   atualizado às 12h28
Estudo inédito mostra que Rio Tietê não tem mais nenhum trecho livre de contaminação A Fundação SOS Mata Atlântica percorreu os mais de 1.100 quilômetros do rio Tietê (Imagem: Pablo Jacob / Agência SP)

Nenhum trecho do Rio Tietê está totalmente livre de contaminação. A conclusão é de um estudo inédito da Fundação SOS Mata Atlântica, que percorreu mais de 1.100 quilômetros do rio, da nascente em Salesópolis até a foz no Rio Paraná, em Itapura, e encontrou diferentes tipos de poluentes em toda a extensão analisada.

A pesquisa identificou microplásticos em todos os 14 pontos de coleta, além de 25 tipos de agrotóxicos, 16 substâncias entre medicamentos e drogas ilícitas, bactérias, parasitas e metais acima dos limites permitidos pela legislação em diversos trechos.

Os resultados fazem parte da Expedição Tietê 2025, realizada entre os dias 9 e 14 de junho pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP) e Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).

Segundo os pesquisadores, o Tietê sofre hoje uma combinação de diferentes formas de poluição. Além do esgoto doméstico, o rio recebe resíduos da atividade agrícola, contaminantes industriais, plásticos e compostos químicos que acabam chegando à água por meio do consumo cotidiano da população.

Microplásticos estão presentes em todo o rio

Um dos dados que mais chamou a atenção foi a presença de microplásticos em todos os pontos analisados. As concentrações variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico.

A maior parte desse material é formada por fibras plásticas, que têm origem principalmente na lavagem de roupas sintéticas, no descarte inadequado de resíduos, na drenagem urbana e nos efluentes domésticos e industriais.

Os maiores índices foram registrados em áreas urbanas, como Osasco, e em reservatórios do interior paulista, caso de Promissão. Segundo o estudo, as barragens favorecem o acúmulo desses resíduos, chegando a concentrar de 10 a 17 vezes mais partículas do que os trechos de água corrente.

Remédios, drogas e cafeína revelam impacto da atividade humana

As análises também encontraram medicamentos de uso comum, como carbamazepina, diclofenaco e losartana, além de cocaína e seu principal metabólito, a benzoilecgonina.

Outro dado considerado importante pelos pesquisadores foi a presença de cafeína em todos os pontos monitorados. A substância é usada como indicador de contaminação por esgoto doméstico, já que dificilmente ocorre naturalmente na água.

Para a equipe responsável pelo levantamento, esse conjunto de contaminantes funciona como uma espécie de "diagnóstico bioquímico" da sociedade, refletindo hábitos de consumo, uso de medicamentos e falhas no tratamento de esgoto.

Agrotóxicos e metais também preocupam

O estudo detectou 25 tipos de agrotóxicos entre os 46 pesquisados. A maior influência foi observada no Médio e Baixo Tietê, regiões onde predominam culturas como cana-de-açúcar, soja e citros.

Entre as substâncias encontradas está a atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004 e ainda utilizado no Brasil. Em alguns trechos, as concentrações ficaram acima dos limites estabelecidos pela legislação brasileira.

As análises físico-químicas também identificaram cobre acima do limite permitido em todos os pontos avaliados e excesso de alumínio em diferentes regiões do rio. Em altas concentrações, esses metais podem causar impactos à vida aquática.

Qualidade da água varia, mas contaminação permanece

Embora o nível de oxigênio dissolvido tenha melhorado em alguns trechos, especialmente próximo à foz, os pesquisadores destacam que isso não significa que a água esteja livre de poluição.

Na nascente, em Salesópolis, o índice de oxigênio dissolvido foi de 6 miligramas por litro. Em Itapura, onde o Tietê deságua no Rio Paraná, chegou a 8,6 mg/L. Já os menores valores foram registrados em Guarulhos e Osasco, com apenas 0,37 mg/L e 0,49 mg/L, respectivamente.

Mesmo onde a oxigenação é maior, permanecem contaminantes como microplásticos, agrotóxicos, resíduos farmacêuticos e metais.

Recuperação exige ações integradas

O coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica, Gustavo Veronesi, explica que os resultados da expedição mostram um cenário de poluição contínua e combinada ao longo de todo o Rio Tietê, resultado da soma de diferentes pressões sobre a bacia. Segundo ele, não se trata de problemas isolados, mas de impactos que se acumulam e interagem entre si.

“O rio reflete as marcas do esgoto, dos padrões de consumo cotidiano, dos resíduos plásticos, das atividades agrícolas e do uso e ocupação do solo na bacia hidrográfica. Quando encontramos microplásticos em todos os pontos, agrotóxicos ao longo do percurso e substâncias como fármacos e drogas ilícitas na água, não estamos olhando para problemas separados, mas de um conjunto de pressões que atuam de forma simultânea e cumulativa”, disse Gustavo.

Os pesquisadores destacam que os diferentes tipos de poluição identificados ao longo do Tietê mostram que a recuperação do rio depende de uma série de ações articuladas, que envolvem saneamento, fiscalização, planejamento territorial e monitoramento permanente da qualidade da água.

Para a diretora de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, a poluição vai muito além do que é possível perceber a olho nu.

"O Tietê não pode ser entendido apenas a partir daquilo que é visível, como cor, odor, espuma ou lixo. A expedição mostra uma camada menos evidente da poluição, formada por contaminantes que expõem as condições sanitárias, os hábitos de consumo e a forma como ocupamos a bacia. Esses dados são essenciais para orientar políticas públicas e cobrar ações concretas de recuperação do rio", pontuou Malu.

Na avaliação do diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica, Luís Fernando Guedes Pinto, o diagnóstico também aponta quais caminhos precisam ser seguidos para reverter esse cenário.

"A poluição do Tietê não nasce de uma única fonte e não será resolvida por uma única medida. Recuperar o rio exige saneamento, fiscalização, planejamento territorial, mudanças nas práticas agropecuárias, recuperação florestal e monitoramento contínuo, avançando de forma articulada ao longo de toda a bacia e no longo prazo", disse.

O relatório completo da Expedição Tietê 2025 foi apresentado na quinta-feira (25), na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), e ficará disponível no site da Fundação SOS Mata Atlântica.

Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica

A Fundação SOS Mata Atlântica é uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos, fundada em 1986. Sua missão é inspirar a sociedade na defesa da Mata Atlântica, o bioma mais devastado do país.

A entidade atua na promoção de políticas públicas voltadas à conservação e à restauração do bioma, com trabalho integrado nas áreas de água, biodiversidade e clima. Também monitora a situação das florestas e dos ecossistemas associados, além de desenvolver ações para a recuperação de áreas degradadas.

Ao longo de sua atuação, a fundação também participa da formulação e do fortalecimento de políticas públicas ambientais. A causa defendida pela organização impacta diretamente mais de 70% da população brasileira, que vive na Mata Atlântica ou depende dela para ter qualidade de vida.

Leia Também
Conta de luz vai ficar mais cara para clientes da Enel em São Paulo a partir de 4 de julho
Tarifa maior Conta de luz vai ficar mais cara para clientes da Enel em São Paulo a partir de 4 de julho
Ministério da Saúde reforça vacinação contra o sarampo em SP após confirmação de casos em crianças
Saúde Ministério da Saúde reforça vacinação contra o sarampo em SP após confirmação de casos em crianças
Barueri inaugura conjunto de obras viárias nesta quarta (1º de julho)
Obras viárias Barueri inaugura conjunto de obras viárias nesta quarta (1º de julho)
Santana de Parnaíba se destaca com baixa taxa de homicídios na região, aponta estudo
Levantamento Santana de Parnaíba se destaca com baixa taxa de homicídios na região, aponta estudo
Álbum da Copa mobiliza milhares de colecionadores, mas expõe desafio ambiental do descarte de figurinhas
Resíduos Álbum da Copa mobiliza milhares de colecionadores, mas expõe desafio ambiental do descarte de figurinhas
Santana de Parnaíba amplia uso de energia solar em prédios públicos e projeta economia milionária
Sustentabilidade Santana de Parnaíba amplia uso de energia solar em prédios públicos e projeta economia milionária
Cerca de 37% dos leitores da FA usariam bicicletas e patinetes elétricos no bairro
Mobilidade Cerca de 37% dos leitores da FA usariam bicicletas e patinetes elétricos no bairro
Rompimento de tubulação na tarde desta sexta (26) afetou abastecimento de água na região
Abastecimento de água Rompimento de tubulação na tarde desta sexta (26) afetou abastecimento de água na região
Governo de SP inaugura Avenida Pirarucu, nova ligação viária entre Barueri e Carapicuíba
Infraestrutura Governo de SP inaugura Avenida Pirarucu, nova ligação viária entre Barueri e Carapicuíba
Fuvest anuncia mudanças na segunda fase do vestibular da USP em 2028
Educação Fuvest anuncia mudanças na segunda fase do vestibular da USP em 2028
Mais Lidas
Governo de SP inaugura Avenida Pirarucu, nova ligação viária entre Barueri e Carapicuíba
Infraestrutura Governo de SP inaugura Avenida Pirarucu, nova ligação viária entre Barueri e Carapicuíba
Justiça proíbe Santana de Parnaíba de exigir cadastro municipal para acesso à saúde e educação
Decisão judicial Justiça proíbe Santana de Parnaíba de exigir cadastro municipal para acesso à saúde e educação
Santana de Parnaíba abre processo seletivo para contratação de professores
Educação Santana de Parnaíba abre processo seletivo para contratação de professores
Show de Luzes no Parque Municipal Dom José nesta sexta (26) foi cancelado
Meio ambiente Show de Luzes no Parque Municipal Dom José nesta sexta (26) foi cancelado