Projeto da URE Barueri
(Imagem: Reprodução vídeo URE Barueri)
A Unidade de Recuperação Energética (URE) de Barueri deve entrar em operação em 2027. A previsão é da Orizon, controladora da Barueri Energia Renovável, responsável pelo empreendimento, que informou em seu balanço mais recente que a conclusão da planta está prevista para o início do próximo ano.
As obras chegaram a 87% de execução e a expectativa é iniciar os testes dos equipamentos ainda em 2026. A atualização foi fornecida pela Barueri Energia Renovável no início de setembro, quando a empresa informou que os trabalhos avançavam para as etapas de montagem eletromecânica, acabamento civil e comissionamento.
A usina está sendo construída em Barueri, no bairro Aldeia, e terá capacidade para receber até 870 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia, aproximadamente 300 mil toneladas por ano. Além de Barueri, a unidade deverá receber resíduos de Santana de Parnaíba e Carapicuíba.
Do lixo à eletricidade
A URE utilizará a tecnologia conhecida como waste-to-energy (resíduos para energia), que produz eletricidade por meio do tratamento térmico dos resíduos sólidos urbanos.
Na prática, o material é submetido à combustão em alta temperatura. O calor aquece uma caldeira e produz vapor, que movimenta uma turbina ligada ao gerador de energia. O projeto prevê ainda sistemas de tratamento dos gases resultantes do processo e controle das emissões atmosféricas.
A Orizon apresenta o empreendimento como a primeira usina waste-to-energy da América Latina. A classificação se refere a esse modelo de recuperação energética por tratamento térmico direto dos resíduos em escala comercial. Ela não deve ser confundida com outras formas de produção de energia a partir do lixo já existentes no país, como o aproveitamento do biogás produzido em aterros sanitários.
Parte da energia que será produzida já está contratada. A Orizon venceu, em 2021, dois leilões de geração promovidos pelo governo federal e deverá comercializar, a partir de 2027, 105 mil megawatts-hora (MWh) por ano, equivalentes a 75% da capacidade prevista da planta. Os contratos têm duração de 20 anos.
Resíduos da região
A URE faz parte de uma parceria público-privada firmada com o município de Barueri para o manejo de resíduos sólidos por um período de 30 anos. A estrutura financeira do projeto prevê remuneração pelo tratamento dos resíduos e receitas provenientes da venda da eletricidade produzida.
Atualmente, os resíduos sólidos urbanos de Barueri são destinados a aterro em Santana de Parnaíba. Com a entrada da URE em funcionamento, o material previsto para recuperação energética passará a ser processado na nova planta.
Segundo informações do projeto, a recuperação energética será feita após a separação de materiais recicláveis. A documentação da Orizon prevê que a coleta seletiva e a triagem realizada pela cooperativa de Barueri continuem integrando o fluxo de tratamento antes da destinação final dos resíduos.
A empresa afirma que o processo permitirá reduzir a quantidade de material encaminhada aos aterros. Após a combustão, permanecem escórias e cinzas, que precisam receber destinação adequada. Por isso, a recuperação energética não elimina completamente a necessidade de disposição final dos resíduos.
Investimento foi revisto para R$ 641 milhões
O custo previsto para implantação da URE também aumentou durante a execução do projeto. Relatório da S&P Global Ratings mostra que o investimento total estimado passou de R$ 600,5 milhões para R$ 641,3 milhões, uma alta de 6,79%.
O documento, publicado em agosto de 2025, apontava ainda que os R$ 9 milhões reservados originalmente para contingências já haviam sido utilizados. Na ocasião, a agência afirmou que eventuais despesas adicionais poderiam exigir novos aportes dos acionistas.
A Barueri Energia Renovável é controlada pela Orizon, com 80% de participação. Os outros 20% pertencem à Sabesp, que adquiriu a fatia por R$ 40 milhões em 2022. A empresa mantém com a Prefeitura de Barueri uma parceria público-privada para recebimento e tratamento de resíduos até 2051 e contratos de comercialização de energia até 2046.
A previsão para a conclusão da planta já mudou ao longo da implantação. Informações divulgadas anteriormente apontavam outros prazos para a entrada em operação. Em março deste ano, por exemplo, a Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren) informava previsão de operação comercial em janeiro de 2027. Já o documento mais recente da Orizon, referente a junho, é mais cauteloso e prevê a conclusão no início de 2027, sem estabelecer uma data para a inauguração.
URE começou a ser estruturada há 16 anos
A URE de Barueri é resultado de um projeto que começou a ser estruturado há cerca de 16 anos. Em junho de 2010, o município incluiu o tratamento de resíduos sólidos urbanos em seu programa de parcerias público-privadas (PPPs). A consulta pública ocorreu naquele ano e a licitação foi realizada em 2011.
O contrato para tratamento e destinação final dos resíduos foi assinado em janeiro de 2012, com prazo de 30 anos. Na época, a concessionária Barueri Energia era formada pela Foxx Soluções Ambientais e pela Tecipar Engenharia e Meio Ambiente. O projeto passou posteriormente por mudanças societárias até chegar à estrutura atual, sob controle da Orizon.
Ainda em 2012, a implantação da URE passou pela análise ambiental. O Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) foram discutidos em audiências públicas realizadas em novembro daquele ano em Barueri e Carapicuíba. Em dezembro, o Consema aprovou o estudo e a Cetesb concedeu a Licença Prévia para a usina.
Desde então, o empreendimento atravessou mudanças de cronograma e de custos até chegar à atual fase das obras.
Resistência acompanha projeto há anos
A implantação da URE também enfrenta resistência de parte dos moradores desde os primeiros anos de discussão. A principal preocupação está relacionada ao fato de a unidade utilizar incineração de resíduos urbanos e estar instalada próxima a áreas habitadas da região da Aldeia.
Os opositores questionam principalmente os possíveis efeitos das emissões atmosféricas sobre a saúde e o meio ambiente, além dos impactos da operação de uma unidade que deverá receber centenas de toneladas de resíduos diariamente. Esses argumentos já apareceram nas discussões públicas sobre o projeto e continuam sendo defendidos atualmente pelo coletivo SOS Barueri, que mantém campanha contra a implantação da usina.
Um abaixo-assinado criado por moradores da Aldeia também cita preocupações com a proximidade da usina de áreas residenciais, riscos ambientais e à saúde e possíveis acidentes. A mobilização reuniu mais de 1,3 mil assinaturas. Essas são alegações dos opositores ao empreendimento, e não conclusões dos órgãos ambientais responsáveis pelo licenciamento.
Por outro lado, o projeto passou pelo processo de licenciamento ambiental estadual. O Consema aprovou o EIA/Rima em dezembro de 2012, condicionando o empreendimento ao cumprimento de exigências, medidas mitigadoras e compensatórias, e a Cetesb concedeu a Licença Prévia naquele mesmo mês.
A responsável pela URE afirma que a planta contará com sistemas de tratamento e controle dos gases produzidos durante a combustão. O monitoramento das emissões e o cumprimento dos limites estabelecidos no licenciamento ambiental fazem parte das exigências para a operação da unidade.