Com uma população de cerca de 21 milhões de pessoas, a demanda supera, há décadas, a capacidade dos mananciais locais
(Imagem: Nithin Pa / Pexels)
A Região Metropolitana de São Paulo vive um desafio que não depende apenas da falta de chuva.
Mesmo cercada por rios e represas, a maior metrópole do país dispõe de apenas 127 metros cúbicos de água por habitante ao ano: menos de 10% do mínimo de 1.700 metros cúbicos recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para evitar situações de estresse hídrico.
O cenário é consequência de uma característica geográfica pouco favorável. A capital e os outros 38 municípios da região metropolitana (incluindo Barueri e Santana de Parnaíba) se desenvolveram sobre a Bacia do Alto Tietê, uma área de nascentes, onde a disponibilidade natural de água é baixa.
Com uma população de cerca de 21 milhões de pessoas, a demanda supera, há décadas, a capacidade dos mananciais locais.
Hoje, mais da metade da água consumida na Grande São Paulo precisa ser trazida de outras bacias hidrográficas, como as dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), Paraíba do Sul, Baixada Santista e São Lourenço.
A operação exige uma extensa estrutura de canais, túneis e tubulações, além de acordos para compartilhar recursos hídricos entre diferentes regiões.
Reúso de água entra na discussão
Diante da escassez permanente e dos impactos das mudanças climáticas, uma das alternativas estudadas é ampliar o uso de água proveniente do tratamento de esgoto.
A proposta prevê um tratamento avançado para que essa água seja devolvida aos mananciais, reforçando o abastecimento das represas antes de seguir para as estações convencionais de tratamento.
O chamado reúso potável indireto já é adotado em locais como a Califórnia, nos Estados Unidos, além de países como Austrália e Israel. A técnica exige processos rigorosos de filtragem e desinfecção antes que a água retorne aos sistemas de abastecimento, mas ainda enfrenta desconfiança de muitos consumidores.
No plano paulistano, o reúso em mananciais estratégicos é apontado como uma medida para ajudar a manter os níveis das represas em períodos de seca e reduzir a dependência de água trazida de outras bacias.
O documento destaca que grandes estações de tratamento, como as existentes em Barueri e Suzano, têm potencial para abastecer córregos que deságuam em sistemas de reservatórios como Alto Tietê e Cotia. A proposta é criar um ciclo em que parte da água utilizada pela população, após tratamento adequado, volte aos mananciais.
O plano municipal estabelece a meta de ampliar gradualmente o aproveitamento de efluentes tratados para chegar a 9,2% de reúso em relação ao volume total consumido até 2045. O objetivo não se limita à recarga de represas: o estudo também prevê usos na indústria, construção civil e limpeza urbana, além do incentivo ao uso mais eficiente da água para fins não potáveis.
Mudanças climáticas agravam o problema
Especialistas apontam que a irregularidade das chuvas tornou a situação ainda mais delicada.
Em vez de precipitações distribuídas ao longo do ano, os períodos de estiagem têm sido intercalados por tempestades intensas e concentradas, que nem sempre ajudam na recarga dos reservatórios.
Esse novo padrão aumenta a necessidade de diversificar as fontes de abastecimento e reduzir a dependência exclusiva das chuvas para garantir água à população nas próximas décadas.
O cenário é detalhado no Diagnóstico PMSAI-SP, documento que embasa a proposta do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado da Prefeitura de São Paulo. Elaborado por técnicos da administração municipal em parceria com o ONU-Habitat, o plano está em consulta pública até 12 de julho e reúne estratégias para os próximos 20 anos nas áreas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e gestão de resíduos sólidos.