O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública foi divulgado nesta quinta-feira (23)
(Imagem: Scott Rodgerson / Unsplash)
O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2012.
Os dados fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que aponta avanços na redução da violência letal, mas também revela o crescimento de crimes e indicadores que continuam preocupando especialistas.
Segundo o levantamento, o país alcançou 39,5 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes, uma redução de 3,5% em relação a 2024 e o menor índice registrado em 13 anos. O resultado fez com que o Brasil antecipasse em dois anos a meta nacional de redução de homicídios prevista para 2027 pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.
Apesar da melhora no cenário geral, o Anuário destaca que a redução da violência não ocorreu de forma uniforme. Enquanto os homicídios diminuíram, cresceram justamente os indicadores ligados à violência contra a mulher e ao uso letal da força por agentes do Estado.
"Os dados e análises revelam um país que alcança importantes avanços na redução da violência letal, mas que enfrenta novos desafios decorrentes da expansão das economias ilícitas digitais, da persistência das desigualdades, da violência contra grupos vulneráveis e da necessidade de modernização das instituições de segurança e justiça", cita o documento.
Feminicídios continuam em alta
Entre os dados mais preocupantes está o aumento dos feminicídios. Em 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas, alta de 2,6% em relação ao ano anterior. O levantamento mostra que 65,1% das vítimas eram mulheres negras, 56,5% foram mortas dentro de casa e, nos casos com autoria identificada, 96,4% dos crimes foram cometidos por homens. Em 60,9% das ocorrências, o autor era o parceiro íntimo da vítima e, em 18,9%, um ex-parceiro.
O estudo também aponta crescimento de diversos registros relacionados à violência doméstica, como tentativas de feminicídio, violência psicológica, descumprimento de medidas protetivas, perseguição (stalking) e ameaças.
Letalidade policial bate recorde
Outro alerta do Anuário é o aumento das mortes provocadas por intervenções policiais. O documento afirma que 2025 registrou a maior letalidade policial da série histórica, impulsionada, entre outros fatores, por grandes operações realizadas no país.
O Fórum afirma que o desafio deixou de ser apenas operacional e passou a envolver mecanismos de controle institucional, transparência e prevenção da captura das instituições públicas pelo crime organizado.
Os dados também mostram forte desigualdade racial: pessoas negras morrem em intervenções policiais em uma taxa 3,5 vezes maior do que pessoas brancas.
Estelionato se consolida como principal crime patrimonial
Se os crimes letais diminuíram, as fraudes financeiras continuam crescendo. O Anuário aponta que o Brasil registrou 2.261.055 boletins de ocorrência por estelionato em 2025, aumento de 2,7% em relação ao ano anterior e crescimento acumulado de 429,8% desde 2018.
Segundo o Fórum, o avanço dos golpes reflete a migração da criminalidade para o ambiente digital. Apesar do número de processos e prisões, os pesquisadores afirmam que o estelionato continua sendo um crime de baixa punição diante da quantidade de ocorrências registradas.
Celulares seguem entre os principais alvos
Os roubos e furtos de celulares continuam figurando entre os crimes mais comuns do país. Em 2025, foram 830.890 aparelhos subtraídos, o equivalente a 95 celulares por hora.
O levantamento mostra ainda que a cidade de São Paulo concentra 20% de todos os roubos e furtos de celulares do Brasil, embora reúna apenas 5,6% da população nacional.
Sistema prisional se aproxima de 1 milhão de presos
Outro dado que chama atenção é o crescimento da população carcerária. O Brasil encerrou 2025 com 964.668 pessoas privadas de liberdade, alta de 2,1% sobre o ano anterior.
Mesmo com a expansão das vagas, o déficit no sistema prisional chegou a 281.213 vagas, evidenciando a permanência da superlotação. O Anuário destaca ainda que apenas 21,6% dos presos exercem alguma atividade laboral, cenário que dificulta políticas de reinserção social.
Tráfico cresce e posse para uso cai
Com relação as drogas, o Fórum registrou 207.058 ocorrências de tráfico, alta de 18,5% em 2025.
Já os registros de posse e uso caíram para 107.986 ocorrências, redução de 18,3% em relação ao ano anterior. Segundo o Anuário, a queda ocorre após a decisão do Supremo Tribunal Federal que descriminalizou o porte de maconha para consumo pessoal. O próprio relatório ressalta essa relação como uma mudança observada nos registros policiais.
Segurança segue no centro do debate
Na apresentação da publicação, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que a segurança voltou a ocupar o primeiro lugar entre as preocupações da população brasileira e defende que o debate eleitoral de 2026 seja baseado em evidências, e não apenas em discursos políticos.
Para a entidade, embora o país tenha conseguido reduzir a violência letal, desafios como a violência contra mulheres, a expansão dos golpes digitais, a atuação do crime organizado, a superlotação dos presídios e a modernização das instituições de segurança pública continuam entre os principais obstáculos para os próximos anos.