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Saúde

Automedicação é forte entre brasileiros, apesar de maioria reconhecer os riscos, diz pesquisa

02 jul 2026 - 15h50 Aliz Lambiazzi   atualizado às 16h00
Automedicação é forte entre brasileiros, apesar de maioria reconhecer os riscos, diz pesquisa 85% dos brasileiros compram remédios pelo menos uma vez por mês (Imagem: Freepik Magnific)

Mesmo cientes dos riscos, os brasileiros continuam recorrendo com frequência à automedicação. É o que mostra o estudo nacional "Uso de Medicamentos no Brasil 2026", realizado pelo Opinion Box e divulgado em abril de 2026. Ele traça um panorama sobre os hábitos de consumo de medicamentos, comportamento nas farmácias e percepção da população em relação aos tratamentos de saúde.

O levantamento revela uma contradição importante: embora 72% dos entrevistados concordem que a automedicação é perigosa, 38% afirmam que, ao sentir sintomas de dor ou doença, costumam primeiro se medicar por conta própria e só procuram um médico caso não apresentem melhora. Além disso, 42% dizem que a primeira reação diante de um problema de saúde é tomar um remédio que já conhecem.

O cenário acompanha o crescimento do próprio setor farmacêutico. Segundo o Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, citado no estudo, o mercado brasileiro faturou aproximadamente R$ 161 bilhões em 2024, um crescimento de quase 13% em relação a 2023.

Os medicamentos fazem parte da rotina da maior parte da população. Segundo o estudo, 85% dos brasileiros compram remédios pelo menos uma vez por mês e quase metade (47%) utiliza algum medicamento de uso contínuo.

Outro dado que chama atenção é a rapidez com que muitos recorrem aos remédios. Quase metade dos entrevistados (47%) toma um medicamento logo nos primeiros sintomas, enquanto apenas uma parcela menor espera um ou mais dias antes de iniciar algum tratamento.

O hábito de se medicar sem avaliação profissional pode trazer consequências sérias e, muitas vezes, silenciosas. É o que argumenta a infectologista do São Cristóvão Saúde, Michelle Zicker.

“A automedicação pode parecer uma solução prática diante de sintomas aparentemente simples, mas representa riscos importantes. Ao tomar um medicamento por conta própria, a pessoa pode mascarar sinais clínicos relevantes e retardar o diagnóstico correto, comprometendo a resolução do quadro”, explica.

A especialista explica que um dos principais perigos é a intoxicação medicamentosa, que acontece quando a pessoa sofre com reações prejudiciais ao organismo devido ao excesso ou ao uso inadequado de medicamentos. Tal atitude pode, segundo a médica, causar complicações graves e, em situações extremas, levar à morte.

As interações medicamentosas são outro aspecto que exige atenção. A combinação inadequada de substâncias pode anular efeitos terapêuticos ou potencializar reações adversas de forma perigosa.

“Qualquer medicamento pode desencadear reações alérgicas inesperadas, mesmo em pessoas sem histórico prévio. Além disso, o uso indiscriminado de antibióticos favorece um problema global de saúde pública: a resistência bacteriana”, alerta Michelle.

Como destaca o relatório, "entre a busca por orientação profissional e soluções mais imediatas, os brasileiros constroem diferentes formas de lidar com sintomas, diagnósticos e hábitos de cuidado". Esse comportamento aparece nos resultados da pesquisa, que mostram tanto o hábito da automedicação quanto a procura por informações na internet antes de buscar atendimento médico.

Google supera inteligência artificial na busca por orientações

Quando surgem sintomas, a internet também se torna uma importante fonte de informação. Entre os entrevistados, 9% disseram pesquisar no Google antes de tomar uma decisão sobre o tratamento, enquanto apenas 3% recorrem inicialmente a ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT ou Gemini.

Apesar disso, a procura por atendimento médico ainda aparece como uma das principais alternativas. Ao todo, 16% marcam consulta com um especialista como primeira atitude, e 13% procuram diretamente um pronto-socorro, posto de saúde ou UPA.

Tratamentos são interrompidos antes da hora

A pesquisa também revela hábitos que podem comprometer a eficácia dos tratamentos. Seis em cada dez brasileiros já interromperam um tratamento antes do prazo recomendado pelo médico pelo menos uma vez.

Outros comportamentos preocupantes também aparecem no levantamento. Cerca de 39% admitiram já ter tomado medicamentos vencidos, enquanto 31% disseram que já ingeriram um remédio diferente do que deveriam por engano.

Além disso, mais da metade da população não tem o hábito de ler sempre a bula dos medicamentos. Apenas 46% afirmam consultar as informações com frequência ou sempre antes de utilizar um remédio.

Genéricos ganham espaço

Na hora da compra, os medicamentos genéricos seguem conquistando a preferência dos consumidores. A pesquisa mostra que 26% optam pelos genéricos sempre que possível, enquanto outros 43% preferem medicamentos de marca, mas trocam pelo genérico quando a diferença de preço é significativa.

O preço, aliás, é o principal critério de escolha quando existem diferentes marcas disponíveis para o mesmo medicamento, citado por 33% dos entrevistados, à frente da recomendação médica (23%).

Farmácia Popular é conhecida, mas ainda subutilizada

O programa Farmácia Popular alcançou elevado reconhecimento entre os brasileiros. Segundo a pesquisa, 85% conhecem a iniciativa, porém apenas 45% já utilizaram o benefício.

Entre aqueles que nunca recorreram ao programa, 42% afirmaram que nunca precisaram dos medicamentos oferecidos, enquanto 8% disseram que os remédios de que necessitam não fazem parte da lista disponibilizada.

Venda de medicamentos em supermercados divide opiniões

A possibilidade de comercialização de medicamentos em supermercados também foi abordada no levantamento e mostrou um país dividido.

Enquanto 41% dos entrevistados são favoráveis à medida, 35% se posicionam contra e 24% não demonstram preferência clara.

Entre os que apoiam a mudança, a principal justificativa é a praticidade de resolver diferentes compras em um único local. Já entre os contrários, o maior receio é o aumento do consumo indiscriminado de medicamentos, citado por 67% desse grupo.

Canabidiol apresenta alta aceitação

Outro destaque da pesquisa é a percepção sobre medicamentos à base de canabidiol. O tratamento já é conhecido por 81% dos brasileiros.

A aceitação também é elevada: 78% afirmam que utilizariam ou considerariam utilizar medicamentos com canabidiol. Para 44%, porém, essa decisão depende da prescrição de um profissional de saúde de confiança.

A pesquisa "Uso de Medicamentos no Brasil 2026" foi realizada pelo Opinion Box com mil brasileiros entrevistados pela internet em março de 2026. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais.

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