Smart Sampa é o sistema de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo
(Imagem: Ciete Silvério/Prefeitura de São Paulo)
Uma nova falha de segurança no Smart Sampa, sistema de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo, permitiu o acesso sem senha às imagens de aproximadamente 17 mil câmeras de empresas conveniadas ao programa. A vulnerabilidade também possibilitou a consulta a documentos e dados cadastrais de parceiros.
Os links de acesso foram desativados na sexta-feira (30), e a administração municipal nega que as informações estivessem disponíveis publicamente na internet.
O problema foi divulgado nesta terça-feira (3), em investigação do UOL, e representa a segunda exposição de grande escala identificada no sistema em menos de um mês. Entre as imagens que podiam ser acessadas estavam transmissões ao vivo de ruas próximas às residências do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e dos ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, além de entradas de clubes particulares da capital paulista.
As câmeras afetadas eram de empresas parceiras e utilizavam serviços de armazenamento e transmissão de imagens da Monuv. Segundo a investigação, arquivos vinculados à plataforma tecnológica da Sentinelx, responsável pelo Smart Sampa, permitiam localizar links diretos para as transmissões, sem a necessidade de autenticação.
Especialistas em segurança digital apontaram fragilidades nos mecanismos de controle de acesso, incluindo uma vulnerabilidade conhecida como IDOR, que permite consultar informações restritas quando o sistema não verifica adequadamente as permissões do usuário.
Além das transmissões, a falha teria possibilitado o acesso a informações cadastrais e documentos de empresas conveniadas, incluindo dados sujeitos à proteção da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Prefeitura contesta exposição
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo negou que os links estivessem publicamente disponíveis. Segundo a Prefeitura, as informações constavam de uma planilha produzida pela Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam), durante uma análise de segurança iniciada em 20 de outubro, por determinação do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A administração sustenta que o documento foi encaminhado ilegalmente à imprensa e informou que adotará medidas administrativas e judiciais para identificar os responsáveis.
A Prefeitura também afirmou que as mais de 20 mil câmeras próprias do município não estavam incluídas na planilha e que o Smart Sampa permanece em funcionamento, sem evidências de ataques externos.
Em relação aos equipamentos conveniados, a gestão municipal destacou que as empresas parceiras possuem infraestrutura tecnológica própria e são responsáveis pelos mecanismos de proteção de seus sistemas.
A Monuv informou que mantém controles de acesso, autenticação e segurança das transmissões. Segundo a empresa, o compartilhamento de imagens com o Smart Sampa segue as especificações técnicas e de segurança definidas pelo próprio programa.
A Sentinelx não havia se manifestado até a publicação da investigação.
Segunda exposição em menos de um mês
Em 20 de outubro, outra falha de segurança no Smart Sampa já havia sido divulgada. Na ocasião, informações sigilosas e credenciais de acesso ao sistema ficaram expostas, permitindo visualizar imagens de milhares de câmeras e consultar dados de agentes de segurança.
A Prefeitura atribuiu aquele episódio ao vazamento de informações por um servidor municipal, que foi afastado, e negou a existência de uma invasão à plataforma.
As duas ocorrências apresentam características diferentes. Enquanto a primeira envolveu credenciais e informações internas do sistema, a nova exposição está relacionada ao acesso direto a transmissões de equipamentos conveniados e a dados de empresas parceiras.
As denúncias também provocaram questionamentos de entidades ligadas à proteção de dados e aos direitos humanos. Em 28 de outubro, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) pediu a suspensão do Smart Sampa e a realização de uma auditoria independente, após a divulgação da primeira falha.
O programa municipal utiliza câmeras de monitoramento, reconhecimento facial e leitura de placas para auxiliar as forças de segurança na identificação de pessoas procuradas pela Justiça e no acompanhamento de ocorrências.
Até o momento, não há confirmação de que terceiros tenham utilizado indevidamente as imagens expostas na nova ocorrência. Também não foi divulgada uma conclusão técnica independente sobre a extensão dos acessos e as responsabilidades pelas vulnerabilidades identificadas.