15/09/2017
ECONOMIA
‘Não existe o momento ideal para empreender’
Uma conversa franca com o empresário Lásaro do Carmo Jr. sobre empreendedorismo, política, negócios, economia e Silvio Santos
João Felipe Cândido
Sem tempo para crise (Foto: Victor Silva/Folha de Alphaville)

Lásaro do Carmo Jr., 48, sempre foi o típico líder dos sonhos de qualquer empresa. Por onde passou, sua gestão sempre deixou uma marca incontestável: o resultado. Apenas para exemplificar, em 2008, quando assumiu a presidência da Jequiti Cosméticos, pertencente ao Grupo Silvio Santos, a empresa faturava cerca de R$ 20 milhões ao ano. Sob sua gestão, em 2014, a companhia saltou o seu faturamento para mais de meio bilhão de reais.

O executivo, que reside em Alphaville, chegou a ser apontado pela revista Veja São Paulo como “o xodó de Silvio Santos”. Novas propostas surgiram e Lásaro deixou o grupo em 2015. Numa entrevista exclusiva à Folha de Alphaville ele fala sobre o atual momento de sua vida profissional, focado no empreendedorismo. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Folha de Alphaville: Após comandar empresas gigantes do consumo, o senhor deixou a carreira de executivo para empreender em outros negócios. Por quê?
Lásaro: Sabia que estava na hora de compartilhar conhecimento e levar minha expertise para ajudar outras pessoas. Decidi ativar a minha empresa de consultoria, a Optimize Consulting, focada naquilo que eu soube desenvolver ao longo de minha carreira: acelerar o processo de crescimento e produtividade das empresas. Passei por isso na Natura, na Jequiti, na Hydrogen e na Jafra. Quando assumi o comando da Jequiti, do Grupo Silvio Santos, a empresa faturava 21 milhões de reais. Em menos de uma década, o faturamento da companhia saltou para mais de meio bilhão de reais ao ano. Na sequência, fui para uma multinacional que apresentava quedas consecutivas em suas vendas nos últimos quatro anos e, logo no primeiro ano de gestão, já crescia na casa dos 20%. Paralelamente a Optimize, conheci um grupo de empresários do Nordeste, que não tinha acesso a recursos ou banco de investimento. Nos associamos e criamos a Capital Upgrade. O propósito é preparar uma empresa, criar valor para ela e apresentá-la a potenciais investidores, que poderão investir no negócio. Outro negócio é a ByeBye Paper, uma empresa de tecnologia sediada em Alphaville que faz a gestão de conteúdo em nuvem e digitalização. A marca já nasceu com a proposta de um mundo melhor. Por meio de seus serviços, as empresas eliminam papéis, resíduos, o toner da impressora e depois oferece facilidades para as empresas: gestão eficiente a um clique, seja pelo computador ou smartphone. Outro nicho é o universo das palestras. Após surgir convites, resolvi promover palestras remuneradas. Minha ideia é ajudar a pavimentar a estrada de sucesso de outras pessoas. Costumo falar sobre gestão, inovação e negócios.

Que avaliação o senhor faz do governo Temer?
O governo Dilma foi o governo da catástrofe. Já o governo Temer tem sido o da insegurança. Em suma, saímos de uma catástrofe e entramos no terreno da insegurança, que na realidade começou há muitos anos com o governo do PT. Uma análise que eu faço do governo Temer neste momento é: se ele está melhor ou pior, eu não sei. O mercado está instável, o consumo não está acontecendo como deveria, até porque não existe nada melhor na economia do que estimular o consumo, mas não aquele por meio do crédito falso, por exemplo. A oportunidade de melhorar começa quando as empresas começam a gerar riqueza.

Com qual cenário econômico o senhor trabalha para 2018?
Será um ano de muitas definições com cenário de crescimento econômico. Minha perspectiva é positiva pois mesmo se a economia brasileira não evoluir muito, nós estaremos mais preparados, principalmente depois dos últimos dois anos. Vale lembrar que 2018 será novamente marcado pelas eleições e isso pode mudar o cenário e os reflexos só deverão aparecer em 2019. Bem ou mal o Brasil está “limpando a casa”. É a primeira vez na história do país que nós acompanhamos empresários e políticos corruptos sendo pelo menos responsabilizados por seus atos ilícitos. Penalizados ainda nem tanto. Isso nunca havia acontecido.

O pior da crise já passou?
Até pouco tempo imaginava que sim, no entanto, depois que o empresário Joesley Batista, da JBS, apareceu com uma série de gravações, a turbulência foi novamente instaurada. Pouco importa se o pior da crise já passou. O caos já está instalado, e agora é só fazer desse caos o meu melhor território. Tenho muito relacionamento com bancos de investimento externo. Alguns já estavam voltando a investir no Brasil, mas recuaram. Ou seja, o pior da crise ainda não acabou. Procuro não pensar muito nisso. Tenho direcionado o meu foco e energia para outros assuntos. Preciso deixar as minhas empresas em pé e fazer os meus negócios andarem. Vejo que a pior crise que pode existir é a crise interna. Se você incorporar o desespero da crise, aí que o mundo acaba. Enquanto empresário e empreendedor, costumo dizer: vamos fazer a nossa parte e esquecer esses governantes. Com economia difícil ou fácil, nós temos que seguir em frente.

Quais foram as grandes lições que o senhor aprendeu com Silvio Santos?
O Silvio é uma pessoa de instinto, feeling e inspiração. A primeira grande lição que aprendi: sempre obedeça e confie em seu instinto. A segunda lição é a retidão nas atitudes. Se fizer uma escolha, por mais difícil que seja, vá até o fim. A terceira: apetite pelo risco. O Silvio sempre tomou risco em sua vida e só conseguiu ser quem ele é porque ele tem apetite pelo risco. Os sete anos que passamos trabalhando juntos foi muito bom. Eu só sou quem eu sou hoje por causa dele.

O que o senhor está lendo?
Acabei de ler a biografia do magnata Warren Buffett. Também li um livro recentemente chamado “Empresas Feita para Vencer – Good to Great” (HSM), do Jim Collins”. A obra aborda o seguinte desafio: de que forma algumas empresas conseguem sair do bom para o excelente? É mais fácil uma empresa sair do ruim para o bom. Agora do bom para excelente é para poucos. Li pela segunda vez “Sonho Grande” (Primeira Pessoa), da Cristiane Correa. Já fui coautor de dois livros e agora estou escrevendo mais dois. Já tenho cerca de 300 páginas escritas de um e cerca de 150 de outro.

Que líder o senhor admira?
São vários. No mundo empresarial admiro muito Jorge Paulo Lemann e Warren Buffett. Silvio Santos e Abílio Diniz também são inevitáveis. São grandes líderes que marcaram a minha geração. Não sou religioso, mas acredito em Deus. Tenho admirado o Papa Francisco cada vez mais.

Que mensagem o senhor deixaria paras as pessoas que sonham em empreender?
O maior pilar social do planeta é o empreendedorismo. Quando você vai empreender, ao mesmo tempo você também está ajudando outras pessoas. Nada gera mais renda e emprego do que o empreendedor. Escolha aquilo que você realmente gosta, que você sabe e que você domina e aposte. Faça essa aposta com os pés no chão. Algo concreto, que seja planejado detalhadamente, para que possa realmente executar. Se não sabe, não tenha vergonha de pedir ajuda. Estude muito, trabalhe duro e invista toda a sua capacidade intelectual, física e financeira. Com certeza tem tudo para dar certo. Não existe o momento ideal para empreender. Para quem pensa em empreender somente ‘quando o cenário estiver bom’ é melhor repensar. Quando o cenário estiver mais favorável talvez a pessoa encontre emprego e desista. O pior cenário é entrar em um negócio que você não sabe nada. Não existe sociedade sem empresa. Não existe emprego sem o empregador. Não existe nada mais em prol do social do que o empreendedorismo. Não tome susto com os percalços. Eles irão estar durante o seu caminho. Todo mundo tropeça e todo mundo cai. Aproveite a queda para pegar impulso e subir ainda mais. Nosso país não precisa mais de Bolsa Família. Precisamos de empreendedores apaixonados por realização.