07/07/2017
ECONOMIA
‘Sem a reforma, o país vai quebrar’
Para o presidente da Azul e morador de Alphaville, Antonoaldo Neves, a reforma trabalhista precisa ser aprovada com urgência
João Felipe Cândido
Para o executivo, atualmente, o gargalo de infraestrutura nos aeroportos grandes e médios está razoavelmente equacionado (Foto: Victor Silva/Folha de Alphaville)

Em 2016, as empresas aéreas brasileiras transportaram 88,7 milhões de passageiros. Desse total, 21 milhões voaram pela Azul, que fechou o ano como a terceira companhia aérea do país.

Quem está à frente da presidência da empresa, que faturou R$ 6,7 bilhões no ano passado, é o morador de Alphaville, Antonoaldo Neves, 42. O executivo é formado em Engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), possui MBA pela Darden School of Business da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos e mestrado em Finanças Corporativas pela PUC-Rio. Antes de assumir o cargo de CEO da Azul, há mais de três anos, passou pelas gigantes Odebrecht e McKinsey.

Neves conversou com a reportagem da Folha de Alphaville na sede administrativa da companhia, em Alphaville, onde trabalham mais de 1.200 funcionários. A seguir, os principais momentos do encontro.

Diante de um ano tão desafiador nos quesitos político e econômico, qual o balanço que o senhor faz da atuação da companhia no primeiro semestre? Neste primeiro semestre estamos entregando exatamente aquilo que prometemos para o mercado de capitais no que diz respeito à rentabilidade. Nosso objetivo final não é a taxa de ocupação e sim a rentabilidade. Nós abrimos capital e agora os nossos números são públicos. Nossa atuação tem sido exatamente dentro do esperado e o balanço do primeiro semestre é positivo.

Para o segundo semestre deste ano, com qual cenário vocês trabalham? Continuamos trabalhando com o mesmo cenário definido no fim do ano passado, em relação ao orçamento. É óbvio que se observarmos a nossa malha, alguns resultados estão melhores do que o esperado e outros piores do que esperávamos. Hoje, transportamos aproximadamente 25% dos passageiros no Brasil. Ficamos bastante satisfeitos. A introdução dos aviões Airbus A320neo está indo muito bem. Estamos contentes com as aeronaves que chegaram para desempenhar o papel que os jatos da Embraer, que são ótimos também, não conseguiam realizar em voos mais longos – a partir de duas horas. Conseguimos ter uma oferta melhor e mais adequada àquela rota em que usamos o 320. O modelo tem possibilitado reduzir o custo do assento por quilômetro. A perspectiva é ser semelhante ao primeiro semestre deste ano. Fechamos 2016 com 10.220 funcionários, 123 aeronaves compõem a atual frota da empresa e operamos mais de 800 voos diários. Continuamos contratando pilotos e comissários. Pretendemos contratar entre 200 e 300 pilotos ainda este ano.

Aponte o principal gargalo do setor aéreo no Brasil? É difícil falar de um único gargalo. Creio que o setor avançou muito nos últimos dez anos. O país investiu muito em infraestrutura e vai continuar investindo. Havia, por exemplo, um gargalo enorme de pátio (espaço onde o avião estaciona) e área terminal, que não existe mais. Antes os aviões precisavam ficar circulando, pois não existia estacionamento. O gargalo de infraestrutura nos aeroportos grandes e médios está razoavelmente equacionado. Tem muito para avançar ainda, no entanto, o cenário atual está longe de ser o que era há cerca de uma década. Outro gargalo acaba de ser resolvido: a liberdade tarifária. Antes ela não existia no Brasil. Desta vez ela é plena. Por exemplo, a companhia que quiser ter uma tarifa mais baixa e não cobrar a bagagem daquele passageiro que viaja sem bagagem, ou seja, pagando menos, agora é possível. Colocamos a modalidade em nossa operação há pouco tempo e tem sido um sucesso estrondoso. Mais da metade dos nossos clientes já viajam pagando menos por não levar bagagem. Por fim, um dos grandes gargalos é o preço do querosene da aviação, que continua brutalmente alto. Sem dúvida é o maior impeditivo do setor. É a próxima barreira que precisa ser enfrentada.

De que forma o senhor enxerga a reforma trabalhista? Nossa legislação trabalhista tem mais de 70 anos. Precisa mudar urgentemente. Nosso setor é extremamente travado por conta disso. Atualmente, operamos em determinadas cidades, dois voos por semana. Temos profissionais que buscam trabalhar em outros lugares e não podem. Essas pessoas estão sedentas por oportunidades de emprego e desenvolvimento e, em muitos casos, ficam no aeroporto sem fazer nada. É um absurdo um jovem não poder ter dois empregos. É algo totalmente ultrapassado. Para muitos, a legislação trabalhista atual está “protegendo” o trabalhador. Na verdade não está protegendo nada e sim prejudicando essa pessoa. A reforma deverá permitir fazer acordos com os nossos tripulantes para ter flexibilidade trabalhista. O impacto da mudança poderá ser visto a longo prazo. A reforma é fundamental para modernizarmos o nosso país e ganharmos produtividade. O Brasil ainda é um país extremamente improdutivo. Vejo como um crime um profissional se aposentar na casa dos 50 anos. Nossa expectativa de vida não para de crescer. Estamos vivendo 70, 80, 90 anos. Quem quer viver em casa sem fazer nada? O país não tem recursos suficientes para sustentar pessoas que desejam parar de trabalhar com 50 anos. O problema é gravíssimo e se a reforma trabalhista não for aprovada, o país vai quebrar.

Que avaliação o senhor faz sobre as operações da Azul Cargo e Azul Viagens? São dois negócios muito importantes para a companhia. Estamos animados com as duas empresas, que têm apresentado crescimento. A visão da Azul Cargo é igual a Azul: uma empresa de serviços de altíssima qualidade e baixo custo. Aumentamos a nossa rede de representantes. Também fazemos operações B2B, ou seja, vamos direto aos grandes clientes corporativos, a exemplo da Samsung. Hoje, a Azul Viagens representa quase 3% dos nossos passageiros na Azul e possui mais de 1.200 agências filiadas, que é um número expressivo. Em Porto Seguro, na Bahia, por exemplo, temos praticamente o mesmo tamanho da CVC. É brutal o que temos feito por lá e em outros destinos.

Mesmo com uma agenda atribulada, como é o seu dia a dia em Alphaville? Gostaria de ter mais tempo para curtir Alphaville (risos). Minha rotina aqui na comunidade é muito parecida com a da maioria dos moradores. Sempre que possível, fico bastante tempo no Alphaville Tênis Clube com meus filhos. Também costumo frequentar a escola em que eles estudam. Adoro jogar futebol com os amigos do condomínio. Uma atividade que gosto muito é pedalar. Sério, Alphaville é o melhor lugar do Brasil para se pedalar. É um privilégio sair de casa pedalando e ir passear em Aldeia da Serra, sempre com aquela sensação de segurança. Eu me mudei para o bairro em 2005 e gosto muito de morar aqui.

Qual é o seu sonho grande? [Faz uma longa pausa]. Meu grande sonho é olhar para trás, daqui muitos anos, e ver que eu deixei um legado para meus filhos e consegui formar uma família feliz, baseada em valores. Já no lado profissional, quero sentir a sensação de ter contribuído para desenvolver e criar oportunidades para os profissionais com quem trabalhei e ao mesmo tempo ver que pude colaborar com o desenvolvimento do país.



"O país não tem recursos suficientes para sustentar pessoas que desejam parar de trabalhar com 50 anos. O problema é gravíssimo e se a reforma trabalhista não for aprovada, o país vai quebrar"