02/10/2017
COLUNISTAS
Os dois lados da muralha
Colunista da Folha de Alphaville

A China possui atualmente uma das economias que mais crescem no mundo, embora tenha apresentado uma desaceleração nos últimos anos, a média de crescimento econômico deste país é de quase 7,5% nos últimos anos.

A China possui uma taxa superior à das maiores economias mundiais, representando atualmente cerca de 15% da economia mundial, onde o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu, em valores correntes, US$ 10,46 trilhões ou 72,2 trilhões de iuanes em 2016 (com crescimento de 6,7%), fazendo deste país a segunda maior economia do mundo (fica apenas atrás dos Estados Unidos).

Por outro lado, a China vem enfrentando dificuldades neste caminho, dentre elas grande parte da população ainda vive em situação de pobreza, principalmente no campo, e a utilização em larga escala de combustíveis fósseis tem gerado um grande nível de poluição do ar e seus rios vêm apresentando altos índices de poluição.

Mesmo assim, o crescimento chinês apresenta um ritmo alucinante, podendo transformar este país, nas próximas décadas, na maior economia do mundo. Porém, o que este crescimento “poderá” representar de impactos para o mundo caso algumas das hipóteses abaixo se torne realidade?

Somente nas últimas três décadas, um terço dos recursos naturais da terra foi consumido e pelas previsões da Organização das Nações Unidas, a população mundial vai crescer 53% e chegará a 11,2 bilhões em 2100. Isso chega a ser assustador! Temos recursos para tantos? Seremos capazes de criar novos modelos que deem a sustentabilidade necessária para acomodarmos tantos seres humanos?

De acordo com Worldwatch Institute e a Universidade Livre da Mata Atlântica, trago alguns números sobre os possíveis impactos globais somente com o crescimento Chinês. Vamos ver?

Com quase 1,3 bilhões de pessoas, a China está distendendo a história, demonstrando o que acontece quando um grande número de pessoas pobres se torna repentinamente mais abastada.
À medida que a renda cresceu na China, também o consumo aumentou. Eles já alcançaram os americanos no consumo per capita de carne suína e agora concentram suas energias em aumentar a produção da carne bovina.

Para suprir esta nova demanda de consumo per capita da carne bovina aos níveis do americano médio serão necessários 49 milhões de toneladas adicionais de produção.

Se tudo isto fosse produzido com gado confinado, no estilo americano, seriam necessárias 343 milhões de toneladas anuais de grãos, um volume igual a toda a colheita dos Estados Unidos.

Hipoteticamente, caso a China, com uma população muitas vezes superior à do Japão, siga o mesmo caminho de buscar sua proteína animal pelo pescado, precisará de 100 milhões de toneladas de produtos do mar, ou seja, todo o pescado mundial para suprir esta demanda.

Em 1994, o governo chinês decidiu que o país desenvolveria um sistema de transportes centrado no automóvel e que a indústria automotiva seria um dos impulsionadores do futuro crescimento econômico.

Imaginem se isso se concretizasse e cada chinês possuísse um ou dois carros em cada garagem e consumisse petróleo no ritmo dos Estados Unidos! A China necessitaria de mais de 80 milhões de barris de petróleo ao dia, ligeiramente superior aos 74 milhões de barris diários que o mundo produz atualmente.

Em consequência, a fim de oferecer as vias e estacionamentos necessários, precisaria também pavimentar cerca de 16 milhões de hectares de terra, uma área equivalente à metade dos 31 milhões de hectares de terra atualmente, produzindo a safra anual de 132 milhões de toneladas de arroz, seu alimento básico.

Caso o consumo anual de papel na China, de 35 quilos per capita, aumentasse para o nível dos Estados Unidos, de 342 quilos, a China necessitaria de mais papel do que o mundo produz atualmente.

Estamos aprendendo que o modelo de desenvolvimento industrial do ocidente não é viável para a China, simplesmente porque não há recursos suficientes para tal.

Os recursos globais de terra e água não poderão atender às necessidades crescentes de grãos da China, caso continue seguindo o caminho atual de desenvolvimento econômico.

Como também a economia energética baseada em combustíveis fósseis não irá fornecer a energia necessária, simplesmente porque a produção mundial de petróleo não está projetada a crescer muito acima dos níveis atuais nos anos futuros.

Além da disponibilidade de petróleo, se as emissões per capita de carbono na China alcançarem o nível dos Estados Unidos, só isso duplicará as emissões globais, acelerando o aumento da concentração atmosférica do CO2.

A concepção de uma estratégia de desenvolvimento é um gigantesco desafio para a China em vista da sua densidade populacional e a adoção do modelo econômico ocidental para a China está sendo contestada internamente.

Se a economia do descarte, baseada no combustível fóssil e centrada no automóvel, não funcionar na China, então não funcionará para 1 bilhão de pessoas na Índia ou para outros 2 bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento.

Estamos num impasse global! A China está demonstrando que o mundo não poderá continuar mais seguindo o caminho econômico atual. Está enfatizando a urgência para reestruturar a economia global, construindo uma nova economia, uma economia projetada para a Terra.




Ricardo Cancela é entusiasta em inovação, empreendedor, palestrante e conselheiro em empresas