11/08/2017
COLUNISTAS
Inimigo público
Colunista da Folha de Alphaville

O planeta sofre plastificação geral, diz a BBC. Um dos ingredientes mais conhecidos da atualidade é o plástico. Sem dúvida é difícil acreditar que se possa viver sem ele. No entanto há plásticos e plásticos. Os de origem no petróleo e os de origem orgânica como da cana de açúcar e outros produtos. A diferença entre um e outro é o período de decomposição na natureza. Os primeiros podem levar mais de uma centena de anos para se desfazer.

Com isso o planeta está cada vez mais atulhado de embalagens plásticas originárias no petróleo. Uma única fábrica de garrafas pet produz 45 bilhões de embalagens em suas 40 fábricas espalhadas pelos quatro continentes. No Brasil ela produz “apenas” três bilhões e meio de unidades. São 137 indústrias e 225 marcas que produzem peças com volumes que variam de 50 ml até 20 litros. Suas formas mais visíveis são as embalagens de água mineral, das mochilas de grife aos garrafões entregues nas empresas e nas casas. Um comércio pujante e que gera renda e poluição. Para variar também faltam melhores avaliações dos fatores ambientais e sociais provocados pelo plástico. Enquanto isso vamos poluindo.

A primeira impressão para quem olha os lixões, aterros sanitários, praias, acostamento de estradas, lixeiras das cidades é que não se sabe o que fazer com esses bilhões de embalagens pet. Elas estão em todos os lugares, nas matas e nos oceanos. Junto com outras embalagens mutilam a fauna marinha e se acumulam em lixões flutuantes na confluência dos oceanos. Obviamente as embalagens de alimentos e líquidos não são os únicos vilões da era do plástico. Este artigo foi escrito em um lap top... de plástico.

Não se trata apenas de apontar as engarrafadoras de refrigerantes e de água mineral como as grandes responsáveis pela degradação acelerada do meio ambiente. A questão que se coloca é se não é possível viver no Século 21 sem o plástico, o que fazer com ele depois de sua utilização? A indústria se defende com a difusão de notícias de novas conquistas como a utilização de menos plástico nas garrafas e se gabam de ter diminuído a quantidade de material em até 25 por cento. Isto é suficiente? A resposta pode ser vista na paisagem rural, urbana ou litorânea. Antes do próprio automóvel a embalagem de plástico está se tornando no inimigo público número um do meio ambiente. E os grandes produtores e distribuidores fingem que não é com eles. Se querem usar, fabricamos.

Solução há, mas custa caro. É mais caro dar um destino reciclável às embalagens do que fabricá-las. Por isso as empresas são refratárias a adoção da logística reversa, ou seja, além de colocar o produto no mercado, receber a embalagem de volta para lhe dar uma destinação correta. Por quanto um catador de recicláveis pode vender um quilo de pet? Ele não tem preço como as latinhas de cerveja feitas de alumínio. Se não tem preço, não há interesse em recolher ou reciclar. Embutir no preço do produto sua reciclagem seria uma saída, mas não há vontade nem da indústria nem de seus distribuidores. Com preço mais alto certamente as vendas iriam cair, junto com elas o resultado e a remuneração dos acionistas. É bom saber que investidores consideram cada vez mais dados ambientais, sociais e de governança antes de decidir colocar dinheiro em uma empresa. Portanto é preciso outra solução.

Mas qual? Aos poucos já se nota a volta das embalagens de vidro, mas que não ganham espaço na publicidade das grandes engarrafadoras. Por isso em sua publicidade caríssima usam as latinhas. Veja na tevê. Garrafas identificam o passado, o pet ameaça futuro de espécies.




Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora do Jornal da Record News. Autor de vários livros na área de treinamento, história, jornalismo e budismo.