10/07/2017
COLUNISTAS
A ditadura do não
Colunista da Folha de Alphaville

A maioria das pessoas cresce e constrói a identidade a partir do que não pode fazer. A quantidade de “não” que escuta desde a infância é tão grande que chega a ser paralisante. Assim, o cérebro (que deveria ser palco de manifestações criativas e inovadoras) cria limitações para a pessoa sentir-se aceita no meio em que vive.

Vivemos em uma sociedade extremamente crítica, que não tolera erros, e isso nos torna excessivamente autocríticos. Cerca de 95% das pessoas mantêm uma “conversa negativa” consigo mesma, condicionando o cérebro a pensar mais no que não quer do que no que deseja.

É sabido que os principais referenciais são instituídos durante a infância, até 7 anos. Nessa fase, chamada de “absorção”, reagimos a estímulos externos como uma esponja, simplesmente absorvendo-os. Essa é a fase em que aprendemos mais e perpetuamos conhecimentos na personalidade. Pesquisa realizada nos EUA revelou que crianças, até 8 anos, recebem cerca de 100 mil “nãos”. Crianças pesquisadas recebiam, em média, 1 elogio para 9 repreensões. Para anular efeitos negativos de uma repreensão, são necessários, pelo menos, 7 elogios.

Há uma equação a respeito da influência do “não”: a quantidade de “nãos” a que as pessoas foram submetidas, somada como elas os assimilaram e ao tipo de sensibilidade, responde pela quantidade de auto-estima que elas têm hoje.

Atualmente, as pessoas deixaram de pensar naquilo que desejam, mas são capazes de relacionar tudo o que “não” querem para sua vida. O problema é que a palavra “não” provoca reação paradoxal no cérebro, pois não possui representação linguística. Ao ler ou escutar “quadrado”, por exemplo, você forma imediatamente imagem mental da figura geométrica em questão. E se eu lhe disser “Não pense em um quadrado”, seu cérebro desprezará o “não” e continuará pensando em um quadrado, registrando só o que veio depois do “não”, ou seja: “pense em um quadrado.”! Por isso é tão importante fazer afirmações positivas.

Outro dia, em um de meus cursos, um pai me disse que está cansado de pedir ao seu filho que não brigue com a irmã, mas ele continua brigando. Sugeri-lhe que passasse a pedir ao filho para ser gentil com a irmã, pois assim seu cérebro, pouco a pouco, o ajudaria a transformar essa imagem em realidade. Esse é o paradoxo do não: pessoas sempre pensam no que são solicitadas a não pensar.

O cérebro está programado para atender às nossas vontades, mas se pensamos apenas no que não queremos, dificilmente alcançaremos sucesso. É preciso pensar positivamente e ter relações com pessoas prósperas e de bem com a vida. Além disso, é fundamental estipular metas positivas, que estimulam a seguir adiante, mas como ninguém gosta de ir em direção a coisas negativas, se as metas não forem positivas não teremos motivo para tentar alcançá-las. É preciso identificar o que nos faz bem e felizes, pois ninguém pode obter satisfação daquilo que você não quer.




Dr. Lair Ribeiro, palestrante internacional e autor, é médico com mestrado em Cardiologia. Ele viveu 17 anos nos Estados Unidos, onde realizou treinamentos e pesquisas na Harvard Unversity, no Baylor College of Medicine e na Thomas Jefferson University e foi diretor da Merck Sharp & Dohme e da Ciba-Geigy Corporation.Com uma dinâmica particular, atribuída tanto ao seu poder de comunicação quanto ao compromisso de fazer a diferença na vida de quem o estiver lendo ou assistindo, Dr. Lair Ribeiro já escreveu vários livros que se tornaram best sellers no Brasil e em países da América Latina e da Europa e se apresentou em mais de 20 países e de 200 cidades brasileiras.