04/08/2017
COLUNISTAS
Você é o que você consome
Colunista da Folha de Alphaville

V ivemos atualmente na cultura que transformou tudo em excesso. Como tudo começou?. De acordo com dados públicos, com a queda do feudalismo e mudança em massa da população para os centros urbanos tivemos os primeiros sinais do período capitalista, e por consequência, o início da era do “consumo”.

Com isso, os reis expandem seu poderio econômico e político através do mercantilismo e do absolutismo, em busca de pedras preciosas como prata e ouro. Com essa nova conduta, a classe beneficiada é a dos burgueses – classe que detém o poder sobre os meios de produção.

Observando a história podemos atestar que toda ação tem consequência e assim, e naturalmente, a classe burguesa passa a contestar o poder dos reis, resultando na crise do absolutismo que dá início à Revolução Francesa e à Revolução Inglesa, e assim o capitalismo se fortaleceu. Após algum tempo, com a Revolução Industrial inicia-se um processo ininterrupto de produção coletiva em massa, geração de lucro e acúmulo de capital para a classe burguesa. Esta classe com todo o poder obtido a partir desse lucro e capital acumulado começa a governar a Europa Ocidental, superando tradicionais políticas de aristocracia, e assim o capitalismo começa a se expandir.

Com o acúmulo de capital, a classe burguesa precisa vender seu próprio produto, e como já existe concorrência, eles precisam provar que seu produto é melhor que o do outro, e assim a propaganda dá seus primeiros passos, permeando o conceito de que comprar é bom, e que comprar mais é melhor ainda, encorajando as pessoas a comprar mais do que o necessário. Este hábito de consumo ininterrupto começa a gerar na população um falso sentimento de realização pessoal, que logo se acaba, fazendo com que a maioria da população sinta o impulso de comprar mais, para continuar se sentindo bem, fortalecendo as raízes do “consumo”.

A relação das pessoas com o ato de consumir vem se intensificando exponencialmente desde então, fortalecida por diferentes períodos, como o surgimento do sistema de crédito e da propaganda nos anos 1920, o ideal do “sonho americano” nos anos 1950 e o consumo individualista dos anos 1980, acirrando a concorrência e a propaganda, fortalecendo a visão “quem aparece mais vende mais”.

Porém, nos anos 90 o cenário do consumo torna-se de fato preocupante. Tal comportamento é fortalecido pela mentalidade de: “você é o que você consome”. Neste período, a mídia de massa começa a abordar os males destes excessos e, nadando contra a corrente, iniciativas ambientais dão voz a previsões ecológicas catastróficas, porém, “parece que ninguém dá a atenção devida”, e ao contrário, surgem novas técnicas de manufaturas e mão de obra barata, impulsionando ainda mais volume de produção, fazendo tudo ficar “descartável”, somado a novas tecnologias digitais, acelerando ainda mais o consumo, onde ter coisas a mais se tornou “uma prova de status e de sucesso”.

A partir deste ponto “consumo” tornou-se “consumismo”, e os primeiros sintomas negativos da compulsão de comprar começaram, mesmo que ainda timidamente, a serem vinculados junto a mídias. Estamos vivendo agora um período onde o consumismo está deixando as pessoas num estado permanente de ansiedade. O consumismo virou um ciclo vicioso onde, tanto a indústria quanto os consumidores tem a sua parcela de responsabilidade, uma “simbiose nociva”.

Somente nas últimas três décadas, um terço dos recursos naturais da terra foi consumido. Isso é trágico! Estamos vivendo um processo de autodestruição, literalmente. Neste “gap” surge como alternativa uma proposta: “economia compartilhada”. A partir deste ponto novas marcas colocam o acesso acima da posse, onde não precisamos mais comprar um bem para usufruir dele, tais como Netflix, Uber, AirBnB, Dropbox, e outras.

Porém, ainda assim se olharmos bem, mesmo estando a “economia compartilhada” um passo à frente dos modelos anteriores, esta ainda se parece mais como um paliativo, pois a mesma não reduz nossa necessidade de “consumo” e sim, a posse. Hipoteticamente continuamos a viver uma ilusão! No entanto, lentamente estamos observando uma mudança de consciência, percebido através do cansaço geral da população, que está repensando seus hábitos e buscando alternativas mais sustentáveis para satisfazer suas necessidades.

Estas mudanças foram percebidas em agosto de 2015 pela empresa Box1824, que realiza pesquisas no mercado. A partir deste ponto, nomeado de LOWSUMERISM – junção das palavras “low” (baixo) e “consumerism” (consumismo) – nota-se um questionamento de hábitos na relação humana com o ato de comprar. Para sustentar estas afirmações de mudança de consciência podemos ver uma crescente troca dos automóveis por bicicletas em grandes centros urbanos, pessoas trocando e doando roupas, pessoas que dividem caronas, quartos, casas, etc, levando em conta novos tipos de economia.

Podemos observar ainda que a sustentabilidade está cada vez mais colaborativa e coletiva e está mudando os nossos velhos conceitos, inclusive, ideias inovadoras estão deixando de usar dinheiro, onde e agora podemos fazer trocas ao invés de pagar financeiramente por um serviço, estadia, etc;
Por fim, LOWSUMRISM é ser mais consciente e consumir menos, e através deste estudo da Box1824, podemos notar atitudes para consumirmos menos, e que somadas irão gerar um grande impacto no futuro. São elas: pensar antes de comprar, buscar alternativas de menor impacto para os recursos naturais (trocar, consertar e fazer), e viver somente com o necessário. Em minha opinião acredito que estamos adentrando uma nova era, que silenciosamente as novas gerações tenderão a fazer deste mundo um lugar com mais equidade, onde poderemos desfrutar de uma felicidade maior.




Ricardo Cancela é entusiasta em inovação, empreendedor, palestrante e conselheiro em empresas